O Munch que o grito quase fez esquecer

Megaexposição na França amplia o reconhecimento do grande pintor

Luiz Carlos Merten / PARIS, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2010 | 00h00

Cinéfilo que se preze conhece, e muito bem, O Grito. O quadro de Edvard Munch - pintor norueguês que viveu na Alemanha - mostra uma figura deformada, pouco mais do que um vulto, que lança um grito numa ponte. Pintado no século 19, os historiadores garantem que surgiu como uma reação do autor ao impressionismo. Ao desespero da figura soma-se o apocalipse de céu e terra que se misturam numa massa única e caótica, em cores de fogo. O Grito virou um marco não só das artes visuais, mas do pensamento. Muitos críticos veem no quadro de Munch a origem do movimento expressionista, que marcou o cinema alemão nas primeiras décadas do século 20. Em Hollywood, a incorporação do claro/escuro do expressionismo à vertente policial produziu o filme noir.

Munch ficou marcado pelo Grito. A obra é emblemática, por certo, mas não representa o conjunto da obra do autor. Uma grande exposição na Pinacoteca de Paris visa a lançar nova luz sobre esse artista tão mítico quanto misterioso. Chama-se O Anti-Grito (L"Anti-Cri) e vai até 18 de julho. A ideia é restituir a verdadeira dimensão de Munch, que teria sido adulterada pela exagerada notoriedade de sua obra mais conhecida. Na Noruega, ele é considerado o maior pintor de todos os tempos. Pode parecer exagero, mas o mérito da mostra da Pinacoteca, ao propor uma nova leitura da obra do artista, recupera o Munch combativo que, mais do que qualquer outro pintor, foi um homem "contra". Com uma lógica verdadeiramente anarquista, ele se opôs ao impressionismo, ao naturalismo e ao simbolismo para criar uma forma de expressão contrária a tudo aquilo que havia recebido como modelos de sociedade e arte desde a infância. Suas relações mais profundas eram com a literatura e a poesia, e ele se experimentou no cinema, que engatinhava quando já era um pintor consagrado.

Consagrado, sim, mas nem sempre palatável. Nascido em 1863 e morto em 1944, Munch perdeu a mãe muito jovem, vítima de tuberculose. A irmã de quem era mais próximo morreu - também de tuberculose - e o pai, deprimido, se refugiou no puritanismo religioso. Para complicar, a família passou a enfrentar dificuldades financeiras. Tudo isso marcou o jovem Munch e se refletiu na sua obra. Em 1880, depois de certa indecisão - queria ser arquiteto -, ele optou pela pintura e entrou para a Escola Real de Desenho de Kristiania, que só seria batizada como Oslo em 1926. Seus primeiros trabalhos foram, essencialmente, naturezas-mortas, cenas da vida doméstica e paisagens urbanas. Ligou-se a Christian Krohg, pintor e escritor naturalista que o iniciou na vida boemia da cidade.

O elo. A primeira exposição ocorreu em 1889 e uma bolsa de estudos lhe permitiu se estabelecer em Paris, onde se instalou no ateliê de Léon Bonnat, pintor realista que não conseguiu convencê-lo a aderir a seus princípios. Nos anos seguintes, Munch viajou muito - Nice, Berlim, Florença, Roma. A cor o fascinava; as novas tecnologias, também. Ele transferiu fotografia e cinema para o interior de suas telas e se tornou cada vez mais transgressivo ao suprimir os limites entre suportes e técnicas em suas gravuras, desenhos, pinturas, esculturas e colagens. Inscrevendo-se na linhagem de Gustave Courbet e William Turner - também objeto de outra grande retrospectiva em Paris -, Munch pode ser, ou é, o elo que une os arautos da modernidade, de Pablo Picasso a George Braque e Jean Dubuffet e Jackson Pollock.

A exposição da Pinacoteca ocupa os três andares do prédio. O Grito - a tela famosa de 1893 - é a grande ausente da mostra, embora tudo a ela se relacione. Foram anos de pesquisa e persuasão - o acervo que a Pinacoteca agora apresenta são as obras de Munch em poder de colecionadores particulares, reunidas pelo curador Dieter Buchhart, reconhecido como a maior autoridade mundial sobre o artista. Até aqui, o Museu Munch e a Galeria Nacional de Oslo haviam sido os grandes expositores da obra do pintor e gravurista. É curioso como as gravuras de Munch se assemelham às de Marcello Grassmann e Oswaldo Goeldi. Os artistas brasileiros foram por ele influenciados ou se trata de um desses casos de sincronicidade tão frequentes na arte, quando diferentes artistas produzem obras gêmeas? Os tesouros que Paris revela estavam reservados, até agora, somente aos olhos de alguns poucos. E, a despeito das inovações e ousadias técnicas e estéticas, o que mais comove nestas cenas - nas Madonas, cenas eróticas e retratos - é a exploração do sentimento humano. Poucos artistas terão sido tão viscerais. Enquanto seus contemporâneos investigavam a natureza e a representação social do mundo, Munch dissecava a "alma". Sua obra é um prato cheio para quem se dispuser a analisá-la com as ferramentas da psicanálise. Como se interrogava o próprio Munch, o que é a arte senão um reflexo das insatisfações da vida?

QUEM É

EDVARD MUNCH

CV: O pintor norueguês nasceu em Loton (1863), e morreu em Ekely (1944). Foi um dos precursores do expressionismo. Morte, solidão, melancolia estão entre os temas de suas obras, assim como o desespero em O Grito (1893).

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