O múltiplo Gianfrancesco Guarnieri

Neste 6 de agosto, o dramaturgo, diretor e ator de teatro, cinema e televisão completaria 80 anos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2014 | 09h31

 

Gianfrancesco Guarnieri faria 80 anos nesta quarta-feira, 6 de agosto. O grande ator, morto em 22 de julho de 2006, nasceu em Milão, em 1934, e recebeu nome nobre e quilométrico: Gianfrancesco Sigfrido Benedetto Martinenghi de Guarnieri. Seus pais, músicos eruditos, contrários ao fascismo de Mussolini, decidem vir para o Brasil, e é assim que o menino Gianfrancesco aporta no Rio com dois anos de idade.

Adulto, Guarnieri faria teatro, cinema e televisão. É matéria para debate decidir em qual dos campos foi melhor. Mas talvez seja ocioso especular sobre isso. O fato é que, como costuma acontecer com esta profissão de ator, pelo palco que ele começa e é ao palco que sempre retorna para se realimentar. Como se diz: o teatro é a arte do ator; o cinema é a arte do diretor; a televisão...bem, a TV é do comércio e, portanto, obedece ao dono da emissora e ao seu desejo de lucro. Mesmo assim, pode-se fazer alguma coisa decente na telinha. Basta ter jogo de cintura. E talento.

Foi o teatro que o levou ao cinema. Em 1954, Guarnieri veio para São Paulo e, com amigos (entre eles Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha), fundou o Teatro Paulista do Estudante. Dele, passou para o Teatro de Arena. Despontando na cena paulistana, ganhou um prêmio por sua atuação em De Ratos e de Homens, de John Steinbach. Um diretor de cinema assistiu à peça e o chamou para o filme que tinha em mente.

Desse modo, Gianfrancesco veio a trabalhar com Roberto Santos neste filme notável que é O Grande Momento (1957), numa época febril de aclimatação do neorrealismo italiano às condições específicas do solo brasileiro. Nelson Pereira dos Santos já havia arado essa terra com Rio 40 Graus (1955) e prontificou-se a produzir o filme para Roberto Santos.  O Grande Momento mostra extraordinário frescor, ao retratar angústias e alegrias dos moradores de um bairro operário de São Paulo. O "grande momento" é nada mais nada menos que a festa de casamento, marcada pela pobreza e por duras opções que devem ser feitas pelo casal. Há uma cena inesquecível, Gianfrancesco andando, veloz e feliz, em sua bicicleta, pelos bairros da cidade.

Quase ao mesmo tempo, Guarnieri escreve sua peça mais famosa, Eles Não Usam Black-tie, sobre os conflitos entre operários durante uma greve. A peça foi dirigida por José Renato em 1958 e filmada, muitos anos depois, em 1981, por Leon Hirszman. O próprio Guarnieri interpreta o patriarca Otávio, chefe de uma família operária. O filme obviamente estabelece diálogo com as greves do ABC paulista, esse divisor de águas da política brasileira. Guarnieri e Fernanda Montenegro - o casal operário - protagonizam uma das cenas mais emocionantes do cinema brasileiro. Num momento trágico da história, sentam-se à mesa do lar simples, sobre a qual a dona de casa separa feijões, como a dizer que, apesar de tudo, a vida continua. Lindo e triste de doer.

Ao mesmo tempo em que conduzia sua arte predominantemente política no teatro e no cinema, Gianfrancesco trabalhava na TV, em telenovelas como O Terceiro Pecado, A Muralha, Mulheres de Areia e várias outras.

No Teatro de Arena de meados dos anos 1960, com a ditadura já implantada no País, realiza peças de caráter histórico, como Arena conta Zumbi (1965) e Arena conta Tiradentes (1967), ambas em parceria com Augusto Boal. Zumbi foi outro divisor de águas, uma peça linda, comovente e engajada, que contava ainda com a música de Edu Lobo, em canções como Upa, Neguinho, Sinherê e outras. Marcou época, com sua história dos quilombolas que, liderados por Zumbi dos Palmares, enfrentava a opressão na época da escravidão. O paralelo com a luta pela libertação política era visível. Aquele era um tempo de guerra e muitos saíam do teatro transformados em sua visão política. Ou reassegurados do que já sabiam e de que caminho deveriam tomar.

Além dos já citados, Guarnieri participou de filmes como Vozes do Medo (episódio Aquele Dia 10, 1969-1973), As Três Mortes de Solano (1975), O Jogo da Vida (1976), Diário da Província (1977), Curumim (1979), Gaijin - Caminhos da Liberdade (1981), Asa Branca - Um Sonho Brasileiro (1981), A Próxima Vítima (1982), Por Incrível que Pareça (1985), Beijos 2348/72 (1985), O Quatrilho (1995) e Contos de Lygia (1998).

Em muitos desses filmes, a presença de Guarnieri limitava-se a uma pequena participação, que se tornava grande graças ao seu talento.Assim é, por exemplo, em Asa Branca, de Djalma Limongi Batista, quando faz o papel de um homem amargurado que enche a cara num bar.

Guarnieri teve trajetória artística impecável. Antifascista, deparou-se com a circunstância da ditadura brasileira e combateu-a com as armas do seu ofício, em filmes, peças e em sua atividade de cidadão. Guarnieri praticou, durante todo esse tempo triste, uma arte da resistência. Ninguém escolhe o tempo em que vai viver. Mas pode escolher o que fazer durante esse tempo e como reagir a ele.Já no quadro da redemocratização, foi secretário de Cultura de São Paulo entre 1984 e 1986, durante o governo de Mário Covas.

Essa trajetória artística e política foi assim descrita, de forma aguda e equilibrada, pelo grande crítico teatral Décio de Almeida Prado:

"Guarnieri escreveu com facilidade e fecundidade tanto na década de 1960 quanto na de 1970, antes e depois de 1964, porque tinha durante esse tempo todo um claro projeto político em vista. Sabia a favor do que ou contra o que manifestar-se. (...) Se na qualidade de escritor engajado Guarnieri nunca se recusou a tomar partido, na de poeta dramático equilibrou sempre a sua obra entre dois pólos: a sedutora simplicidade das grandes explicações históricas - no caso, o marxismo - e a extrema complexidade do mundo real e dos homens. Daí o paradoxo (comum a toda boa literatura) desse teatro: não é preciso partir de suas premissas ideológicas para admirá-lo enquanto lição humana e realização estética".(Peças, pessoas, personagens: o teatro brasileiro de Procópio Ferreira a Cacilda   Becker. São Paulo: Companhia das Letras, 1993).

O que mais dizer, senão que o resto é silêncio?

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