WILTON JUNIOR / ESTADÃO
WILTON JUNIOR / ESTADÃO

O momento é de valorização da cultura afro-brasileira, mas ainda há desafios a superar

Novas vozes negras: Eliana Alves Cruz, Sidney Santiago Kuanza, Luedji Luna e Lucas Leto fazem parte da nova geração de artistas que tem o desafio de permanecer

Amanda Calazans, Especial para o Estadão

20 de novembro de 2021 | 05h00


“Como vocês imaginam que seja um escritor?”, perguntou Eliana Alves Cruz em uma escola pública da Baixada Fluminense. Branco, homem, velho e morto são algumas das respostas que ela escuta até hoje na dinâmica com as crianças. “E quase caem para trás quando descobrem que sou escritora”, afirma a autora de Água de Barrela (Malê, 2018).

As referências negras na infância foram fundamentais para despertar o interesse e o talento de artistas do teatro, da música e do cinema como Sidney Santiago Kuanza, Luedji Luna e Lucas Leto. No caso de Eliana, ela até escreveu em um diário, aos 11 anos, que poderia ser escritora, mas por muito tempo o sonho ficou adormecido por não se ver nas estantes das bibliotecas e livrarias.

Durante as férias de seu trabalho como jornalista esportiva, já com 41 anos, Eliana começou a escrever seu primeiro livro, em 2010. A motivação inicial era fazer um resgate da história familiar para os seus filhos. Ela então escreveu a cena inicial e mostrou para o pai, advogado e sua primeira referência de leitor. “Ele chorou muito, e eu não parei mais.”

Com o romance histórico, Eliana estreou na literatura vencendo o Prêmio Oliveira Silveira de 2015, da Fundação Cultural Palmares. “Costumo dizer que sou fruto de uma política pública de cultura”, afirma a autora carioca que, embora tenha começado tarde, acumula hoje uma produção frutífera de romances, contos e poesia que oferecem uma visão diferente da história do povo negro ao apresentar personagens complexos e cultos, não limitados a contextos de violência.



 

Nos palcos e nas telas

A cultura foi um passaporte de cidadania para o ator Sidney Santiago Kuanza, de 38 anos. Nascido em uma colônia de pescadores no Guarujá, ele driblou o destino que se impôs a muitos de seus amigos: cursar até a sexta série para aprender a fazer conta, adquirir um barco e se casar cedo. Em vez disso, aos 14 anos, conseguiu ir estudar teatro em São Paulo, onde foi acolhido pelo movimento negro ao entrar para o Coletivo Quilombhoje.

Na Escola de Arte Dramática (EAD) da Universidade de São Paulo, em 2005, viu acontecer a discussão sobre políticas afirmativas no País. Com o ingresso de mais alunos negros - 5 em um total de 20 por ano -, a rotina da escola mudou. Nesse contexto, Kuanza participou da fundação da Cia Os Crespos, que reivindicava um teatro negro, passando pela dramaturgia, ficha técnica e público, que estava afastado daquela arte na época.

O grupo chegou a ouvir que a iniciativa se tratava de um “racismo às avessas”, conta Kuanza. “Mas ninguém questionava que mais de 95% das produções (existentes até então) eram só com repertório branco e equipe branca. Isso não era discutido porque era norma.” Hoje, o ator não sabe precisar quantos grupos de teatro negro existem só em São Paulo, tamanha foi a expansão. E o público, composto por 60, 70 e até 80% de pessoas negras, esgota ingressos em poucas horas.



“Eu também posso fazer cinema?”, surpreendeu-se o ator Lucas Leto, 22 anos, ao assistir a Ó Paí, Ó (2007). A obra era do Bando de Teatro Olodum, tradicional grupo negro de Salvador, pelo qual passou Lázaro Ramos, protagonista do filme. O destino levou Leto a ingressar na companhia e, neste ano, a estrelar o longa dirigido por Lázaro, Um Ano Inesquecível - Outono, ainda sem data de estreia.

Formado por um teatro negro, Leto percebeu diferenças ao ingressar no cinema, área ainda com poucos espaços de importâncias destinados a artistas pretos. “Graças à força do streaming no Brasil, a gente está conseguindo mudar isso aos poucos”, diz ele, que já atuou em filmes da Netflix e Amazon Prime Video.

Mesmo com pouca idade, o ator já acumula 10 anos de carreira. Agora no cinema, ele deseja participar de produções que não falem apenas de dor, mas contem histórias felizes do povo negro. “Não estou romantizando. É uma questão prática e comercial: as pessoas precisam se ver nas telas porque isso dá dinheiro.”


 

'A nova geração de artistas negros tem o desafio de permanecer'

Em 2016, a Festa Literária de Paraty (Flip) foi alvo de protestos pela falta de diversidade entre os autores convidados a participar do evento. Como consequência, na edição seguinte, a literatura negra teve 30% de representação na festa, que atingiu um público negro maior. Para a escritora Eliana Alves Cruz, não há como separar essa movimentação na literatura brasileira do momento histórico em que o Brasil vive.



A música também tem valorizado a produção negra. Educada para uma profissão mais formal, a cantora Luedji Luna até tentou negar a vocação musical que surgiu ainda na infância, mas se rendeu a ela aos 25 anos, em Salvador. Dois anos depois, mudou-se para São Paulo para consolidar sua carreira. 

“Acho que eu já começo na mudança. Sou de uma geração que surge ou consegue se difundir na internet. Uma geração com corpos dissidentes, outras vozes, outros discursos”, afirma ao Estadão direto de Las Vegas, onde Luedji estava para se apresentar no Grammy Latino. Seu disco Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água foi indicado à categoria de melhor álbum de música popular brasileira.

Esse é um caminho sem volta para a cultura brasileira, avalia Eliana, mas a nova geração de artistas negros tem o desafio de permanecer. Ainda há desconfiança no Brasil de que o protagonismo de pessoas pretas na cultura seja “só uma moda”, julgamento que se prova errado a cada novo trabalho divulgado.

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