O moderno com gosto erudito de Joinville

Quando Isadora Duncan subiu nos palcos enrolada em uma sumária túnica vermelha para mostrar, com os pés descalços, a sua dança da revolução, as platéias da Europa não estavam preparadas para a tranformação proposta pela bailarina norte-americana. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a idéia de dançar sem sapatilhas era tão ou mais estranha do que o pensamento socialista que estava por trás dos panos vermelhos que cobriam o corpo da mãe da dança moderna.Até Isadora, o balé dançado em todo ocidente era exclusivamente o chamado clássico, aquele executado sobre as pontas dos pés, pautado por grandes saltos e piruetas olímpicas. As coreografias, combinações de seqüências de passos pré-determinados, eram construídas rigorosamente em oito tempos, extraídos tão e somente de comporições eruditas. Os espetáculos clássicos traduziam um espírito gradiloqüente, eram carregados de adereços nos figurinos e nos cenários e acompanhados por grandes orquestras. Até hoje, países como a Inglaterra obrigam que as apresentações de dança ? mesmo as modernas e contemporâneas ? sejam acompanhados por grupo de músicos tocando ao vivo. A verdade é que até hoje essa dança continua obrigando meninos e meninas a estragarem pés e joelhos em jornadas de horas de um curso de formação que dura cerca de oito anos segundo a cartilha russa, a principal formadora de profissionais dessa dança até o fim da União Soviética. Por isso, festivais de dança como o de Joinville, o mais tradicional do País, continuam centrando força em grifes mundias da dança clássica, como o suntuoso Balé Real da Dinamarca, uma das estrelas internacionais desta edição do festival.Como grande parte dos festivais desse tipo, Joinville ainda mantém uma estrutura pautada pelo balé clássico. Além dos espetáculos, o evento é costurado por atividades voltadas para estudantes de dança, como concursos desenvolvidos sobre critérios como "modalidades" e "categorias". São termos quase esportivos que põe à prova, por exemplo, a capacidade numérica de piruetas de bailarinos, que acabam disputando vagas em companhias importantes exibindo coleções de medalhas de festivais como este. Até mesmo as danças tidas como populares, como as folclóricas ou as de salão, também entraram para o rol de competições de festivais e hoje a maior parte dos grupos que atuam nesse tipo de vertente exigem formação clássica de seus bailarinos.Essas tradições entram em conflito com aquele tipo de dança que nasceu sob as vestes da cor do comunismo de Isadora. As danças moderna e contemporânea, estilos que romperam com a mecânica atlética do balé clássico, não são compatíveis com os concursos de saltos e fôlego do festival. Mesmo assim, os estilos estão bem representados na mostra, em espetáculos e homenagens. A principal desse ano será em torno do coreógrafo Jirí Kylián, diretor da prestigiada Nederlands Dans Theater, e um dos importantes inovadores da dança contemporânea mundial, que quase um século depois ainda vai de encontro às convenções do gosto pela narrativa luxuosa das platéias de dança. Como o público de Joinville.

Agencia Estado,

21 de julho de 2000 | 19h39

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