O modernista que corrigiu o passado

Debate sobre o legado do historiador Sérgio Buarque de Holanda, realizado pelo Sabático e Editora Unesp, prova que suas teorias sobre cultura podem ainda render novas discussões a respeito da formação do caráter brasileiro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

Foi um pesquisador americano que observou numa conversa com o historiador paulistano Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982): o mal dos scholars brasileiros é que são, na sua quase totalidade, incompletos. Quando é profusa a documentação de sua obra, sua imaginação é nula. Quando é criativo, sua imaginação "consome toda a documentação". Que imenso historiador teria o Brasil no dia em que pudesse associar os dois num cruzamento, concluiu o americano. Talvez ele não tivesse percebido, mas estava diante do próprio modelo que idealizou. Setenta anos depois, Sérgio Buarque de Holanda permanece como a síntese dos dois historiadores descritos em 1941 pelo acadêmico nesse diálogo travado numa das salas da Biblioteca do Congresso, em Washington. E, acima de tudo, permanece como um modelo a ser seguido, como provou o debate realizado pelo Sabático e Editora Unesp na última segunda-feira, na Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos, em São Paulo, a propósito do lançamento dos dois volumes de Escritos Coligidos de Sérgio Buarque de Holanda, publicados pela Unesp em associação com a Editora Fundação Perseu Abramo.

Participaram do encontro o organizador da coletânea, Marcos Costa, coordenador de cursos do Instituto de Educação Continuada de Presidente Prudente; Antonio Arnoni Prado, professor de literatura da Unicamp; Sergio Miceli, professor titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (Departamento de Sociologia) da USP; e o pesquisador Robert Wegner, que estudou a obra do historiador em seu livro A Conquista do Oeste: a Fronteira na Obra de Sérgio Buarque de Holanda. A mediação do debate ficou a cargo de Francisco Foot Hardman, professor titular de teoria e história literária da Unicamp, que abriu o encontro propondo uma discussão sobre a atualidade do discurso cultural de SBH.

Seu papel antecipador foi imediatamente lembrado pelo professor Marcos Costa, citando o texto Corpo e Alma do Brasil, originalmente publicado na revista carioca Espelho, em 1935, e que integra o primeiro volume de Escritos Coligidos. Nele, Sérgio Buarque de Holanda presta tributo ao acadêmico e diplomata santista Ribeiro Couto (1898-1963), inventor da teoria do "homem cordial", expressão à qual o historiador deu fundamento sociológico, segundo Antonio Candido. O termo foi usado pela primeira vez numa carta enviada por Couto ao embaixador mexicano Alfonso Reyes, em 7 de março de 1931. Buarque de Holanda diz que o poeta santista, autor de Cabocla, foi feliz ao lembrar que a grande contribuição brasileira para a civilização seria a do "homem cordial". Por causa dessa definição o historiador foi crucificado por antagonistas, que não enxergaram no homem brasileiro nem a delicadeza no trato, nem a hospitalidade que SBH viu, embora nesse mesmo texto de juventude o historiador observe que nossa forma comum de convívio social "é, no fundo, justamente o contrário da polidez".

O professor Marcos Costa destaca nesse ensaio outra observação de SBH sobre a forma como o individual mantém sua supremacia sobre o social na cultura brasileira. O autor de Visão do Paraíso (1959) conclui que a vida em sociedade, para o homem cordial, seria "uma libertação do verdadeiro pavor que ele sente em viver consigo mesmo". Para Costa, SBH produziu uma teoria de nossa cultura, chamando a atenção justamente para o individualismo e a antipatia do brasileiro por formas ritualísticas adotadas pelos europeus. "Não podemos esquecer que Sérgio Buarque voltou da Alemanha justamente em 1930, em plena Revolução, tendo de assimilar as mudanças do Brasil sem ceder, no entanto, ao canto da sereia da política."

Diálogo. O texto em discussão, Corpo e Alma do Brasil, surge justamente um ano antes da publicação de Raízes do Brasil (1936) - e é considerado uma versão resumida do clássico livro. A convivência com outros povos e culturas, em particular a alemã, deu a SBH novos parâmetros para que o historiador percebesse os contrastes entre as duas sociedades e as diferentes formas de convívio, segundo Marcos Costa. "Deixando de lado a política, ele arrisca uma nova abordagem da história, e isso estava muito distante da análise científica da época", diz. Citando um exemplo, o professor recorre ao texto intitulado Caminhos e Fronteiras, de 1939, embrião do livro homônimo que seria publicado apenas em 1957. Tanto nesse como em Monções (1945), Costa destaca a forma como SBH elege personagens secundários, na contramão da história oficial, propondo um diálogo com a sociologia e a antropologia inspirado no pensamento do sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918). "Se ele tivesse produzido sua obra na França, certamente seria uma referência cultural mundial", finalizou, referindo-se às semelhanças entre seu trabalho e o da escola dos Annales, fundada por Lucien Febvre e Marc Bloch em 1929.

O professor Sergio Miceli, ao analisar o mesmo texto que deu origem a Raízes do Brasil, lembrou que o foco de Corpo e Alma do Brasil "não são as construções econômicas nem as injunções políticas, mas a barafunda doutrinária em que o País afunda na época" - o historiador, nesse texto, fala dos "intelectuais neurastênicos" e do integralismo brasileiro, afirmando que não seria difícil prever "o que poderia ser o quadro de um Brasil fascista", além de definir o País como "uma periferia sem centro". O que existe no texto, segundo Miceli, é o argumento "de que jamais teremos uma sociedade igualitária no Brasil", classificando-o como "uma tentativa de dar uma resposta ao debate doutrinário entre direita e esquerda" travado após a ascensão de Hitler. Alguns textos de juventude de SBH, segundo Miceli, são ingênuos, como o artigo originalmente publicado em 1930 na revista alemã Duco, saudando Júlio Prestes como futuro presidente da República (ele não assumiu o cargo, impedido pela Revolução). Miceli classificou ainda como "esquisito" o "fascínio" de SBH pelo livro Der Mythos des 20 Jahrhundert (O Mito do Século 20), de Alfred Rosenberg (1893-1946), teórico do nazismo. O historiador, claro, não faz coro ao conselheiro de Hitler, mas leva a sério demais o ministro do Reich nos territórios ocupados do leste europeu.

Para Robert Wegner, as transformações pelas quais passou Raízes do Brasil em suas sucessivas edições dão conta do profundo descontentamento de SBH com explicações de ordem genética ou racial, atenuando formulações como a da herança brasileira da mentalidade ibérica. "Se, em Raízes do Brasil, ele fala do homem cordial, em Monções o que interessa é o processo civilizatório do sertão", lembrou o autor de A Conquista do Oeste, definindo a passagem do primeiro para o segundo livro como um momento de revisão histórica na obra de SBH.

Esse tom revisionista está claro nos artigos publicados em 1941, em que trata tanto da ação colonizadora dos portugueses na Amazônia como da colonização alemã no sul do País. A mudança de registro coincide com sua passagem pelos EUA, justamente quando Roosevelt desenvolve sua política de boa vizinhança e o historiador desembarca no país americano a convite do Departamento do Estado. Dois anos antes ele assumira um cargo no Instituto Nacional do Livro, ligado ao Ministério da Educação.

Resistiria ainda algum traço regionalista, paulistano, num intelectual cosmopolita, urbano e moderno como SBH?, pergunta Wegner, fornecendo ele mesmo a resposta: "Em sua última entrevista, concedida a Richard Graham (professor de História da Universidade do Texas), em 1982, ao responder se o modernismo marcou, afinal, sua prosa, SBH observou que os modernistas se voltaram para o interior do País e os negros, e que ele apenas levara essa preocupação para seu trabalho como historiador, sem glorificar os bandeirantes". Para Wegner, os escritos coligidos por Marcos Costa vão justamente esclarecer a filiação filosófica e ideológica de SBH, especialmente Caminhos e Fronteiras, texto publicado em 1939 que integra o primeiro volume da coletânea - e inspirador do livro de mesmo nome (de 1957) sobre a história da ocupação territorial promovida pelos bandeirantes.

Literatura. O professor Antonio Arnoni Prado, responsável pela edição da crítica literária dispersa de Sérgio Buarque de Holanda nos dois volumes de O Espírito e a Letra (Companhia das Letras, 1996), disse, a respeito do seu papel de crítico, que SBH "foi um modernista consciente dos limites do movimento", referindo-se à participação do historiador como analista das primeiras obras produzidas pelos escritores alinhados a Mário de Andrade e Oswald de Andrade - inclusive livros do próprio Mário, como Macunaíma, mencionado num dos textos da coletânea. Consciente de que "história não é gênero literário", SBH, segundo Arnoni Prado, tratou da dimensão inventiva da palavra na crítica à História da Literatura Brasileira de Lúcia Miguel Pereira. O historiador, nesse texto de 1950, condena Ezra Pound por seu argumento de que a história da arte é a das obras-primas, não a dos malogros, referindo-se diretamente ao problema metodológico que levou a crítica mineira a inscrever Machado de Assis "numa linha evolutiva de que seria o ponto culminante" da literatura brasileira e a condenar outros bons autores como "malogros". "O que seria, então, de Lima Barreto e Graça Aranha?", perguntou Arnoni Prado, para sublinhar a pertinência da crítica de SBH ao cânone brasileiro.

Destacando a importância de Sérgio Buarque como crítico literário, Arnoni Prado citou como exemplos de valor os oito estudos da literatura brasileira da época colonial organizados pelo professor Antonio Candido (em Capítulos da Literatura Colonial, Brasiliense, 1992), especialmente o dedicado a Cláudio Manoel da Costa, em que SBH aproxima o poeta mineiro dos seiscentistas espanhóis. O mediador Francisco Foot Hardman lembrou ainda da prosa do historiador, citando o conto Viagem a Nápoles, de 1931 - seu único exercício ficcional, em que o autor "invade" a cabeça do personagem Belarmino, garoto com medo de crescer, e flana sobre São Paulo. "Ele, de fato, escreveu contos curtos no modernismo, mas sempre pensou na análise ensaística", observou Arnoni Prado, definido sua prosa como "cheia de paradoxos".

No debate, o papel de SBH como militante político, um dos fundadores do PT em 1980, não foi esquecido. Marcos Costa citou as críticas do historiador ao genocídio indígena praticado no Brasil e suas observações sobre a democracia, contidas em vários ensaios da coletânea organizada por ele, que reúne 146 textos produzidos entre 1920 e 1979. SBH fez parte de um seleto comitê internacional de especialistas organizado em 1949 pela Unesco, em Paris (sob a presidência do inglês Edward H. Carr) para examinar os diferentes significados da palavra democracia. Para ele, a pergunta vital sobre o tema é: como excluir os regimes totalitários fascistas que pretendem agir no interesse da maioria? Sua resposta: pelo humanismo. Nenhuma democracia professa a superioridade racial ou a prioridade do Estado sobre o indivíduo. Um advogado na plateia, José Roberto Militão, perguntou, então, aos debatedores como SBH se posicionou diante da questão racial, recebendo de Marcos Costa a resposta final: "Ele tratou da questão da integração das raças sem a qual não teria sucesso o processo civilizatório". O mediador Foot Hardman (que comenta a coletânea na página ao lado) concluiu que seu discurso foi justamente o de "evitar o determinismo racial" que levou países como a Alemanha ao abismo.

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