O mito Meierhold, mestre da vanguarda russa

Sergei Eisenstein, cineasta russo criador do celebrado filme Encouraçado Potemkin, disse: "Tive um mestre de quem não sou digno de amarrar o cadarço dos sapatos". Ele se referia ao ator e diretor Vsevolod Emilevich Meierhold. Mas não podia nomeá-lo, pois citava um artista proscrito. "De 1940, ano de sua morte, até 1957, não se podia falar em Meierhold na Rússia", diz a pesquisadora e diretora Maria Thais.

, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2010 | 00h00

Ela passou dez anos debruçada sobre vida e obra desse artista seminal assassinado na prisão, aos 66 anos, no governo de Stalin. Representante maior das vanguardas do início do século passado, Meierhold exerceu forte influência sobre todo o teatro ocidental. Sua prática e ideário - entre elas a técnica corporal conhecida como biomecânica e a defesa da autonomia da escrita cênica sobre o texto - correram os palcos do mundo.

Para ampliar o conhecimento sobre a pedagogia de Meierhold na formação do ator, aspecto de sua atuação que mesmo na Rússia só começara a vir à tona nos anos 80, Maria Thais foi seis vezes a Moscou. Na primeira delas ficou quase dois anos consultando documentos, visitando teatros e museus. De quebra, tornou-se parceira artística do renomado diretor Nicolai Vassieliev, e criou a coreografia de sua encenação do Canto 23 da Ilíada. "Tinha em Meierhold um mestre imaginário e ganhei um real, o Vassiliev."

Inédito. Agora, essa pesquisadora compartilha sua pesquisa no livro Na Cena do Dr. Dapertutto, Poética e Pedagogia em V. E. Meierhold, 1911 a 1916, editado pela Perspectiva que será lançado hoje na Livraria Cultura. O volume traz o texto de sua tese defendida no Departamento de Artes Cênicas da USP e, inédito no Brasil, a tradução na íntegra do único livro escrito por Meierhold, Sobre o Teatro. Jacó Guinsburg, editor da Perspectiva e também orientador de Maria Thais, foi quem insistiu pela dupla publicação num único volume. "Parte desse livro foi editada no Brasil em 1969 na tradução de Aldomar Conrado." O texto na íntegra, ela enfatiza, foi traduzido a quatro mãos, por ela e Roberto Mallet.

Há quem pense em Meierhold como um discípulo rebelde do diretor Constantin Stanislavski. Pois o traçado de sua arte desenhado por essa pesquisadora com grande rigor documental mostra que suas ideias não surgem "depois" de Stanislavski numa recusa à posteriori de seu sistema pedagógico. A renovação realizada por ambos sobre a cena se dá simultaneamente, naturalismo e simbolismo como fontes paralelas. Meierhold tinha a convicção que seu teatro exigia um novo treinamento de ator e trabalhou sobre isso. "Ele é o espelho invertido do mestre, sua obra se constitui pelo que ele não quer de sua prática diária. É propositivo, provocador e agregador, por isso consegue se cercar de gente muito bem preparada", argumenta Maria Thais.

A leitura desse estudo desfaz equívocos. Por exemplo, surge com Meierhold, aponta a pesquisadora, o mito do encenador que se sobrepõe a todos. Tal engano se dá a partir da parceria realizada com Vera Komissarjévskaia, a grande atriz do teatro russo. "Ela convidou Meierhold, mas era preciso mudar seu registro de atriz e isso não é fácil, daí o mito." No entanto, ele era contra o encenador tirano até porque sua reinvenção da cena exigia o chamado ator criador. Meierhold chega a fazer gráficos e desenhos, reproduzidos no livro, sobre a igualdade de funções na concepção cênica. / B.N.

NA CENA DO DR. DAPERTUTTO

Autora: Maria Thais

Editora: Perspectiva

(456 páginas, R$ 60).

Lançamento hoje, 18h30

Livraria Cultura

Av. Paulista, 2073,

tel. (11) 3170-4033

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