Eduardo Sterzi analisa Dante, biografia de Barbara Reynolds

De Dante, talvez o mais célebre poeta do Ocidente, não se sabe com certeza nem mesmo o nome: chamou-se realmente Dante, ou, como sugeriu Filippo Villani em seu De origine civitatis Florentie et de eiusdem famosis civibus, Dante era uma abreviação de Durante? E seu sobrenome? Em documentos e nos manuscritos mais antigos, nenhum deles autógrafo (de Dante, não nos chegou sequer uma linha de próprio punho), encontramos: Alaghieri (com as variantes Alagheri e Alageri, que se verificam também nas formas seguintes), Aleghieri, Alighieri, Allaghieri, Alleghieri, Allighieri, Adegherii, Aldighieri, Aldigherri... Consagrou-se a forma Alighieri a partir de Boccaccio, seu entusiasmado copista, comentador e biógrafo, mas, segundo Nicola Zingarelli, que na passagem do século XIX ao XX submeteu a análise e comparação documentos da época de Dante, a forma original teria sido Alaghieri. Guglielmo Gorni começa Dante: storia di un visionario, mais recente biografia do poeta, publicada na Itália em 2008, pela constatação: "Poucas certezas e muitas dúvidas marcam a vida de Dante, desde o nascimento. Como sobre o outro grande protagonista das letras européias, Shakespeare, sobre Dante recaem enigmas de todo gênero e são escassas as datas e os dados seguros". Nem mesmo sua data de nascimento é certa: o próprio Dante só assinala, reiteradas vezes ao longo de sua obra, seu signo, Gêmeos - donde se supõe que tenha nascido entre maio e junho de 1265. (Já a data de morte e suas circunstâncias são menos duvidosas: vítima de malária, contraída na viagem por terra de Veneza a Ravena, onde estava exilado, morreu nesta cidade na madrugada de 13 para 14 de setembro de 1321, poucos meses depois de ter concluído a composição de seu poema maior, a Commedia, ou, segundo a grafia do próprio Dante, Comedìa - que, aliás, só se tornaria Divina dois séculos depois, em 1555, quando o erudito veneziano Lodovico Dolce acrescentou o adjetivo ao título, em edição sob sua responsabilidade.)

Eduardo Sterzi, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Essa constante incerteza - reforçada pelo fato de que passou a maior parte de sua vida adulta no exílio, sem fixar-se por muito tempo num único lugar, o que certamente favoreceu a dispersão de documentos, dificultando a reconstrução de sua trajetória numa narrativa unitária - faz com que, a seu respeito, os ensaios biográficos predominem sobre as biografias propriamente ditas. Ou, melhor formulado, faz com que os bons biógrafos - como Michele Barbi, Giorgio Petrocchi, Enrico Malato, Robert Hollander, o já mencionado Gorni - adotem um andamento ensaístico, deixando de lado as ilusões de conhecimento pleno, preocupando-se, em vez disso, em distinguir entre os relativamente poucos fatos comprovados e os inúmeros e contraditórios mitos que desde muito cedo se constituíram em torno de Dante. Tratam, antes de tudo, de voltar aos documentos, a começar pelos poemas em que Dante transfigurou incessantemente sua própria vida (o primeiro grande mitógrafo dantesco foi ele mesmo), e coligir e expor lacunas, dúvidas, possibilidades.

Procedimento bem diverso é o que está na base de Dante: o poeta, o pensador político e o homem, de Barbara Reynolds, publicado em inglês em 2006 e agora editado no Brasil pela Record. O livro é marcado por um singular horror vacui pelo qual todas as lacunas na história pessoal e autoral do protagonista são colmatadas com conjecturas, muitas delas destituídas de qualquer fundamento na documentação. Grande erro do leitor menos familiarizado com os estudos dantescos seria confundir o volume com uma biografia adequada às mínimas exigências historiográficas. Consiste, na verdade, numa seqüência de paráfrases mais ou menos eficazes dos principais textos dantescos, segundo a ordem cronológica de escrita, entremeada de incursões biográficas nas quais quase nunca fica claro o que é informação assentada em documentos de época ou na vasta bibliografia sobre o autor e o que não passa de suposição infundada. Com um agravante: com freqüência, a autora elabora alguma hipótese declaradamente incerta, quando não francamente absurda, para logo fazer dessa hipótese o pressuposto do prosseguimento da narrativa.

O exemplo mais gritante dessa prática está no devaneio acerca da razão pela qual Dante abandonou a escrita do Convivio e do De vulgari eloquentia e se dedicou à composição da Comédia. Barbara Reynolds, com base em evidência alguma a não ser supostas marcas de oralidade nos tratados, sugere que ambos teriam sido concebidos originalmente como aulas ou conferências a serem ministradas em Bolonha. O Convivio, escrito em vernáculo com vista a um público mais amplo (enquanto o De vulgari eloquentia foi redigido em latim para leitores doutos), também teria se difundido na forma de cópias parciais, vendidas avulsamente. (Gorni, em contraste, conclui: " há razões para crer que o Convivio jamais tenha sido divulgado enquanto Dante estava vivo". E observa que também o De vulgari eloquentia provavelmente jamais saiu da "gaveta do autor".) Para Reynolds, um suposto "fracasso" comercial do Convivio e a "crise espiritual" dele decorrente teriam levado Dante a pensar em modos de reconquistar "seu público". É a figura de "Dante, o showman" - título de um capítulo - que aí emerge, para em alguma medida dominar todo o livro. A decisão de escrever a Comédia teria nascido da constatação de que havia no "mercado" uma grande "demanda" por contos maravilhosos, sobretudo aqueles que envolviam viagens ao mundo dos mortos... Com esta conjectura que beira o ridículo, Reynolds demonstra um desconhecimento espantoso do estatuto social de Dante. Este encarnava como ninguém a nova figura - nascida na Itália, mais precisamente na corte siciliana de Frederico II, e depois assumida pelo grupo stilnovista - do poeta-intelectual, que deixava para trás a figura do trovador, e mais ainda aquelas do jogral e do menestrel. Não era um "showman", mas um homem de pensamento.

O mais curioso do livro de Reynolds é que todas as hipóteses biográficas mais arriscadas - como as insinuações sobre a influência de alucinógenos nas "visões" de que Dante fala na Vida Nova e na Comédia ou sobre sua suposta bissexualidade - estão baseadas em evidências muito fracas ou mesmo inexistentes. Menos inconsistentes são as observações da autora acerca do trabalho de Dante com a linguagem - acerca do modo como estrutura os diálogos, acerca da ênfase em determinadas palavras ou do recurso pontual a formas dialetais, acerca do deslizamento entre os mais variados registros estilísticos - assim como a respeito dos vínculos dos textos dantescos com outros textos antigos e medievais.

Para o leitor não especializado, talvez a maior virtude do livro seja sua fluente legibilidade. Pena que esta seja prejudicada pela tradução, que tem problemas de várias ordens, a começar pela simples incompreensão do texto em inglês, assim como das citações em italiano e em latim. Um exemplo somente, dentre muitos: a autora cita e traduz a sentença bíblica "DILIGITE IUSTITIAM QUI IUDICATIS TERRAM", transcrita por Dante na Comédia, como "Love Justice Ye Who Judge the Earth", isto é, "Amai a Justiça, vós que julgais a Terra"; na tradução brasileira, lê-se uma frase sem sentido: "Amor Justiça que julgam a Terra".

Eduardo Sterzi é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, professor no curso de pós-graduação em História da Arte na Faap e autor, entre outros, de Por que Ler Dante (Globo).

Dante - O Poeta, o Pensador Político e o Homem

Autora: Barbara Reynolds

Tradução: Fatima Marques

Editora: Record

(640 págs. , R$ 79,90)

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