O mito Euclides da Cunha ganha livro

Os homens criam deusese depois se tornam dependentes desses deuses. Diretora daunidade da Universidade Paulista em São José do Rio Pardo,interior de São Paulo, a professora de História Cármen Trovattocita o sociólogo francês Émile Durkheim (As Formas Elementaresde Vida Religiosa) para explicar a relação da cidade com aobra e a vida de Euclides da Cunha. Cármen lançou na semana passada um livro sobre essarelação: chama-se A Tradição Euclidiana - Uma Ponte entre aHistória e a Memória. O título faz referência clara à ponteconstruída na cidade sob o comando do engenheiro Euclides entre1898 e 1901, época em que ele também escreveu a maior parte desua obra-prima, Os Sertões. "As semanas euclidianas são mais do que uma festa, sãouma ritualização da história; o culto à figura de Euclides équase uma religião", afirma ela. Um dos resultados disso foi atransformação da cidade num local necessário para o estudo daobra do escritor. "Não se vai a Roma sem se ver o papa; não seestuda Euclides sem passar por São José do Rio Pardo." O dia-a-dia da cidade está marcado pelo mito. Uma escolaleva seu nome, a ponte que construiu faz parte do emblema dacidade (e também se chama Euclides da Cunha), sempre quepossível ele é lembrado. Também faz parte desse universo apresença constante de Francisco Escobar, amigo de Euclides eintendente (prefeito) da cidade na época da construção da ponte.Escobar dá nome, por exemplo, à praça em que estão depositadosos restos mortais do escritor e à cabana de zinco localizada àbeira do Rio Pardo. O livro de Cármen faz uma etnografia dos rituais dasemana, que incluem desfiles, maratonas intelectuais, disputasesportivas e discursos no dia de sua morte, 15 de agosto,feriado em São José do Rio Pardo. "Procuro comparar asprimeiras décadas da semana - nos anos 1940 e 1950 - com assemanas mais recentes." Para ela, a semana é um "fato socialtotal", conceito que deriva da sociologia e da antropologia,especialmente de Durkheim e Marcel Mauss. A historiadora é,também, uma "observadora participante": desde os anos 1970, dáaulas durante o evento e já fez parte, inclusive, da direção daCasa Euclidiana, responsável pela organização anual da semana.Na sua infância, também foi uma "maratonista". Desfiles - "Nessas celebrações, as pessoas se mostramdo jeito que querem ser vistas: por isso, o desfile de aberturalembra uma parada militar, mas também um carnaval, com carrosalegóricos, fantasias, etc.", comenta. "Cada solenidade possuium ritual próprio, com objetivos, atores e espectadoresespeciais; o clima de festa prevalece durante toda a semana,período em que a cidade suspende seu cotidiano, vivendo momentosespeciais", completa no livro, tendo como referência oantropólogo Roberto Damatta, autor de Carnavais, Malandros eHeróis. Daí a presença de atividades não relacionadasdiretamente à literatura, como campeonatos de judô e futebol desalão durante o evento. "A tradição comemorativa é a expressãode como a cidade quer ser vista, quer que os outros a vejam enela acreditam", escreve Cármen, para quem a "tradiçãoidentifica a cidade". Tradição - Cármen foi orientada no mestrado por ReginaAbreu, professora da UniRio, autora de O Enigma de OsSertões. Para Regina, "uma tradição que se mantém por longosanos, sobrevivendo a toda sorte de intempéries, (...) não fazparte do passado, mas sim do momento presente. Ela integra o quede mais vivo existe numa sociedade: os valores culturais de seupovo." A autora de A Tradição Euclidiana - Uma Ponte entre aHistória e a Memória acaba por ser, num certo sentido,representante dos dois tipos de pesquisadores da obra deEuclides, que se encontram todos os anos em São José do RioPardo: os euclidianos históricos, que se consideram legítimosrepresentantes dos fundadores do movimento, e os professoresuniversitários que estudam sua obra na academia. Um dos nomes que foram citados por Cármen no trabalho éo do professor Leopoldo Bernucci, da Universidade do Texas eautor de uma edição anotada de Os Sertões, lançada nesteano. Freqüentador da Semana Euclidiana, ele afirmou ementrevista recente que o estudo de Euclides na academiaprosperou a partir dos anos 1980, sendo antes pouco analisadonas universidades, "embora tivesse um público bastante fiel deestudiosos, mesmo que não fossem acadêmicos". Esses não-acadêmicos foram, acredita ela, responsáveispela manutenção da tradição em torno de Euclides. "Elessistematizaram a semana, organizaram a maratona, deram corpo aoevento; em parte, isso se deve a Oswaldo Galotti, que nãodeixava ninguém de fora do encontro."

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