O mito de Ulisses para dar conta de uma existência

Sutil autobiografia, Volta a Ítaca, de Virgílio Costa, reúne as experiências dos 10 anos em que o autor viveu em NY

HELOISA ARUTH STURM / RIO , O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2013 | 02h08

O poeta Virgílio Costa recorre ao mito de Ulisses para falar sobre saudade, distância, exílio e morte no recém-lançado Volta a Ítaca. Das experiências reunidas durante os dez anos em que viveu em Nova York, além das peregrinações feitas por Atenas e outras cidades gregas, surgiram os 57 poemas reunidos no livro, publicado em parceria com as editoras Lacre e Boca da Noite. A obra revela uma sutil autobiografia do escritor, permeada por versos que falam também sobre NY, Grécia antiga e Brasil contemporâneo, trazendo gravuras da artista grega Artemis Alcalay.

A temática para o livro surgiu das conversas entre Costa e a amiga Artemis, na época em que os dois eram estudantes de pós-graduação na New York University, na década de 1980. "Conversávamos sobre as saudades da nossa terra, tínhamos uma curiosidade mútua entre os dois países, Brasil e Grécia, e em Nova York tínhamos essa sensação de não conseguir voltar, porque são tantos os encantos, os atrativos...", diz Costa.

"Conversando sobre Homero, ficamos com aquela ideia de que a gente não voltaria, de que aquele era o nosso exílio." No período em que morou nos Estados Unidos fazendo mestrado em pintura e doutorado em artes e humanidades, Costa frequentou as oficinas de poesia de renomados escritores, como Joseph Brodsky, Nobel de Literatura, Galway Kinnell, professor de criação poética na NYU e vencedor do Pulitzer de poesia, e Richard Harrison, professor de técnica de poesia, também na NYU, e crítico literário.

Alguns dos poemas reunidos foram escritos originalmente em inglês e depois traduzidos. Costa conta que a ideia do livro permaneceu mesmo depois de ele voltar ao Rio e Artemis à sua natal Atenas. O assunto voltava à tona entre os dois a cada cinco anos, até que, há cerca de dois anos, ele decidiu concretizar o projeto - concluído não sem uma boa dose de teimosia, característica que compartilha com o herói de Homero. "Ulisses é o mais humano de todos os heróis da Ilíada e da Odisseia. Primeiro, ele é teimoso, segundo, é ardiloso e terceiro, e o mais importante, ele é curioso. E por causa dessa curiosidade quase não volta para casa."

Dentre os versos que permeiam as quase 130 páginas de poemas, ele destaca alguns que contam um pouco de sua história. É o caso de Ícaro, referência ao irmão assassinado aos 18 anos, ou Cantiga de Ninar para Meu Amigo, homenagem ao poeta e amigo Dante Milano, que morreu em 1991. O livro pode ser lido por dois caminhos: como uma narrativa linear ou em poemas avulsos.

E as gravuras de Artemis Alcalay funcionam como narrativa independente. A primeira delas faz referência à avó da artista, Nina Soussis, que imigrou para o Brasil e voltou à Grécia anos depois, na década de 1930, e morreu quando Artemis vivia em Nova York.

Seus desenhos em águas-fortes remetem ao exílio, às partidas e chegadas, e também trazem a temática da morte, com o navio em queda, o mundo subterrâneo, os prédios que se confundem com lápides.

O poeta vem de uma família de amantes das letras. Organizou Poesia Completa de Odylo Costa, Filho (2010), seu pai, e Teatro Completo de Francisco Pereira da Silva (2009), seu tio, além de ter publicado obras sobre Joaquim Nabuco e sobre o Modernismo. Este é o segundo livro de poesia do escritor, que publicou, em 1977, A Roseira e o Mato.

Recorrendo a Carlos Drummond de Andrade e seu Claro Enigma, Virgílio dá indícios do que o leitor encontrará entre as folhas de Volta a Ítaca. "Os poemas estão meio escondidos. Drummond dizia que a poesia dele tinha vários enigmas, mas que era muito fácil de entender. Procuro, quando escrevo, ser um pouco sutil, porque as coisas não precisam ser tão gritadas. Ao mesmo tempo, tem muito na minha poesia que se você for ler, às vezes, vai encontrar dois, três significados e referências."

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