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O mito de Orfeu revisto por Dino Buzzati

Poema em Quadrinhos é colcha de retalhos bem trançada em que autor homenageia artistas que admira

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2010 | 00h00

Em 1969, Dino Buzzati cobriu a Bienal de Arte de São Paulo como jornalista. Uma experiência que não passou despercebida pois, em uma entrevista publicada no Estado, na edição de 30 de setembro, ele se confessava um cultor do trabalho metódico. "Tenho verdadeiro fascínio pela vida militar. Sinto-me atraído não propriamente pela natureza das tarefas, mas pela disciplina e pelo método que empregam nas mínimas coisas que praticam."

Ao longo de sua carreira, Buzzati manteve-se fiel ao seu princípio de não fazer concessão às modas literárias e artísticas, o que distingue Poema em Quadrinhos de publicações do gênero. O livro baseia-se no mito de Orfeu que, depois de perder a mulher, Eurídice, vai em sua busca. Assim, Buzzati criou o personagem Orfi, um cantor pop que lamenta a morte muito jovem da amada Eura.

Certa noite, ele a vê entrando na casa em frente da sua, um lugar misterioso. Ao chegar lá, Orfi é questionado por um "diabo da guarda" - na verdade, um paletó, que lhe apresenta a casa e impõe uma condição para liberar sua entrada: que ele cante músicas cuja letra mencione situações banais do mundo dos vivos, algo já esquecido por ali. Coisas como tempestades, amor, etc.

Disposto a rever Eura, Orfi aceita as condições, iniciando uma peregrinação na qual encontra mulheres nuas, forma com que Buzzati representa a grande liberação sexual vivida pelo mundo naquele fim de década de 1960. Poema em Quadrinhos, aliás, é uma colcha de retalhos muito bem trançada, em que Buzzati homenageia e faz referências a diversos artistas de sua admiração.

Dessa forma, a figura do Nosferatu surge como homenagem ao cineasta F. W. Murnau, da mesma forma que prédios disformes lembram a obra de Salvador Dalí. "Eis aqui um Buzzati que sintetiza em cerca de 200 quadros todo o seu mundo poético, fabuloso e simbólico, com a impressionante imediatez de quem consegue, não sem trabalho, mas muito agilmente, vestir sua ideia com uma estrutura expressiva inédita e cativante", continua Claudio Toscani.

Orfi não é à toa um músico. Por meio de suas canções, Buzzati alterna versos livres e rimados, uma escavação na verdade em que o autor italiano emprega meios inventivos e expressivos.

Em Poema em Quadrinhos, Dino Buzzati repete, de uma certa forma, a experiência da divertida fábula A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília, publicada em 1945 e lançada no Brasil pela Berlendis & Vertecchia Editores.

Ainda sob o calor do pós-guerra, Buzzati criou a história e os desenhos de 11 capítulos que, por meio da ironia, apresentavam sua reflexão sobre a triste atualidade.

Mesmo dirigido a um público infanto-juvenil, a Famosa Invasão contém os temas que marcam a obra de Buzzati, como a relação do homem com a natureza, a vida militar, a montanha, a metrópole corruptora, o bestiário. O mesmo aconteceu com Poema em Quadrinhos.

Como viveu durante anos em uma redação de jornal, os temas surgiram, como ele mesmo reconheceu, a partir das notícias que escrevia no Corriere della Sera. Tanto que, para Eugenio Montale, um dos maiores poetas italianos, a narrativa literária e jornalística de Buzzati era "a mesma luva, mas pelo avesso".

QUEM FOI

Nasceu em 1906 em San Pellegrino, nas proximidades de Belluno, na Itália. Atuou como jornalista (começou no Corriere della Sera em 1928 e permaneceu por mais de 40 anos), escritor e artista plástico. Estreou na literatura em 1933, com Bàrnabo das Montanhas, e publicou sua obra-prima, O Deserto dos Tártaros, em 1940. Morreu em 1972, em Milão.

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