O mistério inscrito nos sintomas das pacientes histéricas

Filme revive época crucial da descoberta dos segredos da mente humana

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2013 | 07h17

Por uma dessas particularidades do esforço humano de compreensão, Charcot acabou entrando na história das ideias a reboque de Freud. Compreende-se. Sigmund Freud, o pai da psicanálise, por força de sua obra e invenção, tornou-se muito mais influente para a posteridade do que este médico francês com quem foi estudar, ainda muito jovem, em Paris. 

No entanto, Jean-Martin Charcot (1825-1893) tem posição inabalável na história da psiquiatria, em particular, pelo estudo dos distúrbios então chamados de histéricos. Ele as atendia no hospital parisiense Pitié-Salpêtrière, onde Freud estagiou no final do século 19. Foi lá, em contato com essas doentes, que os primeiros estalos a respeito do inconsciente e da cura psicanalítica vieram à mente de Freud. 

Em Augustine, o papel principal é atribuído à histérica vivida por Stéphanie Sokolinski. Vincent Lindon é Charcot e Chiara Mastroianni interpreta sua esposa, Constance. O ano é 1885 e Augustine, jovem provinciana que trabalha numa casa de família, luta para controlar seus ataques, que surgem sem explicação aparente. É levada para tratamento com Charcot, que, dizem, usa métodos revolucionários para o tratamento desses males misteriosos. Entre outras novidades, faz uso da hipnose para aliviar os sintomas das doentes. Sim, "as" doentes, porque são mulheres todas as acometidas por esses males de origem desconhecida. Hysteron quer dizer útero em grego. 

O filme dirigido por Alice Wincour é então a história de uma cura? Nem tanto. Poderia ser melhor descrito como a história de uma tentativa de compreensão daquilo que não se conhece. Charcot avança com dificuldade no entendimento de uma doença cujas causas ele ignora. 

Por assim dizer, tateando, Charcot logo descobre que os sintomas exibidos, a teatralização dessas queixas pelas histéricas, encobre um significado sexual próximo do explícito. É o que vê, mas também não consegue enxergar por completo, como homem limitado por seu tempo e seu horizonte cultural. De certo modo, o que ele não vê é o que será enxergado por seu discípulo mais famoso e que, exatamente por isso, dará um passo mais largo no conhecimento da mente humana. 

Alice Wincour dirige esse drama do sofrimento psíquico com sobriedade. Às vezes até com certo peso, mas é essa atmosfera mesmo que associamos à sociedade burguesa e repressiva da Europa do século 19, época em que a histeria faz sua aparição meio de través no mundo médico. Se para a medicina tradicional da época as histéricas eram apenas fingidoras, para a mente mais aguda de Charcot eram apenas doentes. E que, com sua doença, poderiam ensinar algo sobre a natureza humana. Inclusive que o desejo pode se manifestar sob a forma de dor e sofrimento, o que apenas em aparência seria uma contradição.

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