O mistério em torno do avião de Saint-Exupéry

Sem solução durante 60 anos, um famoso enigma apresentou solução subitamente: as circunstâncias da morte de um grande escritor francês, Antoine de Saint-Exupéry, autor de uma das obras mais lidas do mundo inteiro, O Pequeno Príncipe, que fascinou e fez sonhar milhões de crianças. Constatou-se que peças encontradas no mar próximas a Marselha pertenciam ao avião do escritor, o que levou a novas conjecturas sobre as causas de sua morte. Ontem, porém, a família de Saint-Exupéry pediu "outras provas" antes de aceitar qualquer veredicto, lembrando que sempre foram contra "uma investigação sistemática dos restos do avião porque esses pedaços são a sepultura de Saint-Exupéry". Por que o desaparecimento de Saint-Exupéry ficou tanto tempo envolvido em mistério? Porque se produziu no fim da guerra, na grande confusão da derrota alemã. E principalmente porque Saint-Exupéry, que foi, além de sua qualidade de grande escritor, piloto de carreira e serviu durante a guerra na aviação militar. E foi justamente a bordo de seu avião que ele encontrou a morte. Claro, soube-se muito tempo depois que Saint-Exupéry foi morto no comando de sua aeronave. Mas ignorava-se o momento exato e as circunstâncias da tragédia. Sabe-se que, em 1944, ele cumpriu missões no Mediterrâneo, a partir da Córsega, que já havia sido liberada da ocupação alemã, prestes a preparar o desembarque das forças aliadas no sul da França. Mas nunca conseguiram recuperar os destroços do aparelho. As hipóteses eram desencontradas. Havia, por um lado, as testemunhas da época, que viram um avião cair no mar, mas seus testemunhos eram fracos e contraditórios. Recentemente, o desenvolvimento das explorações submarinas teve como efeito multiplicar as pistas, as falsas pistas. Mergulhadores, amadores ou profissionais, resgataram partes de aviões em diferentes localidades. Uma literatura mais ou menos confiável sobre a morte do escritor proliferou. Agora, a verdade é conhecida. Saint-Exupéry caiu no mar no dia 31 de julho de 1944. Os destroços foram descobertos recentemente, no outono de 2003, perto da ilha de Frioul. Pedaços de um avião foram resgatados. Uma dessas peças trazia uma série de quatro números gravados manualmente, 2734, seguidos da letra L. Essa inscrição era o número de série que a fábrica de aviões americana Lockeed colocava em seus aviões depois que saíam da linha de montagem. Uma consulta foi feita à empresa americana, que concluiu que esse número correspondia ao avião de Saint-Exupéry. Pode-se imaginar a emoção dos pesquisadores quando receberam a confirmação da Lockeed. Com meio século de atraso, jogou-se luz sobre uma questão sombria. Em compensação, um outro enigma jamais será elucidado. "Por que o aparelho caiu tão longe?" Única indicação, muito modesta: alguns amassados foram vistos no metal do turbocompressor, que faz supor, segundo os especialistas, que o avião tocou a água na vertical em enorme velocidade. Estaria confirmada, portanto, a tese de que o escritor encontrou a morte dentro de seu avião e em combate. Um fim de acordo com o personagem. A maior parte de seus livros formou uma epopéia da aviação: Courrier-Sud (1927) e Vôo Noturno (1931) relatavam as missões que ele cumpriu como piloto de carreira na linha que ligava a França e a Patagônia. Mais tarde, Terra dos Homens (1939), ampliou o seu campo de meditação. Evocou a solidão dos homens no deserto da Terra ou no do céu. Em 1942, a experiência da guerra alimentou seus novos livros, tanto Piloto de Guerra quanto Lettre à un Otage (1942). Ele associou intimamente a coragem individual do homem e a noção de sacrifício para a comunidade humana. Mas, para alguns especialistas, entre eles o historiador Bernard Mark, Saint-Exupéry pode ter se suicidado. Em uma entrevista dada ontem à agência EFE, Mark diz que oito dias antes de seu desaparecimento o escritor "tinha dado a entender que possuía idéias suicidas". No mesmo dia, havia tentado fazer com que um avião tripulado por alemães derrubasse o seu quando sobrevoava a cidade de Turim, na Itália. Surpreendidos pela indiferença do francês, que não desviou ao entrar na linha de fogo, os pilotos alemães acabaram não disparando. "O próprio Saint-Exupéry disse que quando os viu chegar girou o retrovisor e os esperou", disse Mark. (Tradução de Alessandro Giannini)

Agencia Estado,

09 de abril de 2004 | 17h52

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