O mistério e o charme da 'biscateira das artes'

Daniela Thomas explica qual é a graça de se trabalhar em dupla

Marília Neustein , O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Parcerias. "Necessito de diálogo, da negação das minhas ideias"          

 

 

 

 

 

 

Ela é o xodó de todos caciques artísticos: de Walter Salles e Felipe Hirsch a Paulo Borges. Só isso já seria o suficiente para colocá-la, isoladamente, na mesma categoria. No entanto, Daniela Thomas não se sente confortável: seu mote é a parceria. Ela, que se auto-denomina uma "biscateira das artes", afirma que gosta de trabalhar em dupla. Na contramão da ditadura da "egotrip", valoriza a troca: "Gosto da negação das minhas ideias." E quem lhe tem servido de bandeja este prazer é o marido, Felipe Tassara.

É com ele que a cenógrafa e cineasta projeta a museografia do Museu da Imagem e do Som carioca. "Nossa conversa sobre trabalho sai do quarto para sala e cozinha", conta. Além do museu, Daniela está mergulhada em uma pesquisa sobre o Brasil colonial para o desenvolvimento de um longa de ficção.

Apesar de se considerar uma pessoa de alma desgarrada, sabe que esse seu mix de talentos possui raízes. Filha do "faz tudo" Ziraldo, Daniela enche a boca quando o assunto é família: "Tudo que me aconteceu, em termos de escolhas, é resultado dos anos que eu passei em volta da prancheta de meu pai."

Carioca, com sotaque de mineira e moradora de SP, ela recebeu a coluna para um bate-papo pouco antes acertar os últimos detalhes cenográficos da peça O Inverno da Luz Vermelha, em cartaz no Teatro Faap. A seguir, trechos da entrevista.

 

Você é muito reconhecida por suas parcerias. Não gosta de produzir sozinha?

Preciso desse encontro. Necessito de diálogo, da negação das minhas ideias. É assim que eu gosto de fazer as coisas e isso tem sido uma constante na minha vida. Acho que trabalhar em dupla tem a ver com um tipo de personalidade.

Que personalidade é essa?

São pessoas que se desgarraram em algum momento da vida. Eu, por exemplo, sou uma carioca, com sotaque de mineira e que mora em SP. Esse "não pertencimento" a uma única identidade está na raiz dos meus encontros.

E uma dessas parcerias acabou até em casamento, não é?

Conheci o Felipe (Tassara) em 86. E desde então fazemos juntos as exposições, montamos o SPFW. E a conversa sobre trabalho sai do quarto para sala e para cozinha. Hoje mesmo estávamos tendo uma discussão e, no meio disso, nos demos conta de que as crianças estavam completamente entediadas na mesa do almoço (risos).

E o encontro com Walter Salles, como aconteceu?

Já nos admirávamos mutuamente. A oportunidade de fazermos algo juntos surgiu na fase preparatória de um show do João Gilberto, em 1990, no Ibirapuera. O Waltinho estava tentando filmar um documentário sobre ele e eu fui chamada para arrumar o cenário. A nossa parceria foi abençoada por essa situação.

Assim nasceu a dupla?

É. Quando eu saí do Brasil, aos 18 anos, o sonho da minha vida era fazer cinema. E o Walter abriu essa porta pra mim.

Por falar em cinema, qual será seu próximo filme?

Eu e o Beto Amaral estamos escrevendo um roteiro. Para tanto, ando mergulhada em pesquisas sobre o Brasil de trezentos anos atrás. Nossa ideia é realizar uma ficção de época. Tenho uma vontade imensa de criar imagens originais de como deveria ser o País naquele tempo. Pensando nisso, fomos para a Flip assistir palestras sobre a obra de Gilberto Freyre.

Como você une suas habilidades de estética e escrita?

Meu sentido visual é totalmente ligado à palavra. Sou incapaz, por exemplo, de escolher um objeto de decoração para minha casa se ele não tiver significado. Sou uma leitora de paisagens.

Você foi chamada para fazer projetos focados na Copa de 2014 ou na Olimpíada?

Felipe e eu estamos fazendo a museografia do MIS do Rio. Já é um sintoma do embelezamento do Rio para a Copa. Fomos assuntados pela FIFA ou CBF, não me lembro, para fazer um museu deles, mas nada evoluiu.

Há influência de seu pai, o Ziraldo, no seu trabalho?

Tudo o que me aconteceu em termos de escolhas é resultado dos anos que eu passei em volta da prancheta do meu pai. Sou uma mistura da minha mãe e dele. Não tenho uma profissão definida totalmente, sou uma espécie de biscateira das artes. Isso vem do meu pai. Já minha mãe sempre foi focada, centrada. Nenhuma outra experiência teve mais impacto na minha vida do que a vivência familiar.

E ele a elogia?

Meu pai é muito engraçado. As pessoas me contam dos elogios que ele faz, mas ele não me dá mole (risos). É uma combinação entre não me deixar ficar mimada e um medo danado de eu falhar. Mas somos muito amigos e nos falamos todos os dias.

Seu pai foi preso pela ditadura. Lembra desse episódio?

Como se fosse ontem. Foram os dias mais terríveis da minha existência. Os militares entraram com metralhadoras na minha casa, fizeram meu pai arrumar a mala. Minha mãe "uivava" na sala, nervosa. E eu me agarrei na perna dele. Como quem pensa "eles não vão machucar uma criança de dez anos" e meu pai começou a pedir para que eu o soltasse. Fiquei frustradésima.

Carrega marcas disso?

O que mais me dá raiva é que eu não perguntei para minha mãe o que aconteceu logo depois que levaram meu pai. E ela morreu. Veja bem, a posição do meu pai durante a ditadura era "light". Esse período foi avassalador.

Acredita que os arquivos da ditadura serão inteiramente abertos, como tem acontecido no resto da América Latina?

Acho que sim. Ainda mais com a Dilma. Entretanto, no Brasil, o esquecimento está na ordem do dia. Como se fosse condição para progredir. E eu acho o contrário.

Já tem um candidato?

Sou lulista. Para mim, é uma decepção imensa o Brasil sucumbir ao patriarcalismo. Me impressiona a desfaçatez com que eles abraçam gente como o Collor. Me sinto traída pessoalmente. Mas eu vou morrer votando no Lula. Foi muita história, acompanhei e vivi todas as etapas para que ele chegasse lá. Contudo, estou deprimida de ver a força do "senhor de engenho", essa coisa que o Gilberto Freyre diagnosticou. Ainda 500 anos depois, eles continuam mandando neste País.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.