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Ignácio de Loyola Brandão
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O mistério do esqueleto na rua Lisboa

Nove da noite de terça-feira. Marcia e eu saímos do restaurante Genova, na rua Lisboa e caminhamos de volta para casa. Noite fria, céu claro, lua enorme. Estávamos felizes depois de um risoto de lulas e um vinho tinto. Eu pensava em fazer postar na internet um JE SUIS MAJU. Pela rua passaram três pessoas, não prestamos muita atenção, estávamos olhando para um prédio que foge aos clichês de nomes em inglês ou de nobres sem significado. Este tem um nome poético, Kurt Weil. Ficamos olhando, gratos a uma construtora que lembrou-se do músico genial que compôs a Ópera dos Três Vinténs, de Brecht, que por sua vez inspirou a Ópera do Malandro, de Chico Buarque. 

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

10 Julho 2015 | 02h00

Os três rapazes caminhavam devagar e pareciam amparar um companheiro que ia muito mal das pernas. Machucado ou bêbado, dissemos. Quem sabe chapado. Nossa! Cedo ainda para estar daquele jeito, mal conseguia andar. De repente, Márcia alertou-me: “Não é um bêbado, não! É um manequim.”

Desses manequins de vitrine de loja de roupas. Mas, para onde levavam o manequim se por aqui não há nenhuma loja de roupa? Os três iam em silêncio. Aliás, os dois, manequim não fala. Apressamos o passo e, quando chegamos mais perto, vimos que os jovens não levavam um manequim e sim o esqueleto de um adulto. Isso, um esqueleto de gente, desses que estudantes de medicina usam nas aulas, para aprender sobre os ossos de corpo humano. Na infância, eu era assombrado por um esqueleto que existia na sala de ciências no porão do Colégio Progresso de Araraquara. Prova de coragem era passar por aquele corredor sombrio no comecinho da noite.

Aqueles dois que conduziam um esqueleto pela rua deserta numa noite fria seriam estudantes? Mas de onde traziam o esqueleto? Para onde levavam? Nossa casa fica próxima da Faculdade de Medicina da USP, basta subir a rua Artur Azevedo, chegar ao Caoc, a sociedade atlética dos alunos, que tem piscina, campo de futebol, pista de atletismo, quadras, uma reserva florestal, e dali chegar ao Hospital das Clínicas e à faculdade. Um pedaço verde no meio da cidade. Teriam sequestrado o esqueleto da faculdade? 

Ali, vizinho, fica também o Instituto Médico Legal, mas no IML não existem esqueletos. Lembramos também que a faculdade fica em frente ao cemitério do Araçá, famoso pelas estátuas de bronze sobre os túmulos. Ladrões têm roubado muitas obras de arte para vender como sucata. Teriam os jovens roubado um esqueleto do cemitério? Mas os ossos eram tão brancos, limpos. Seria um esqueleto de plástico? Ao pensar nisso, a magia quase quebrou.

Roubar do cemitério nos parecia difícil e arriscado. Significaria pular muro, arrombar uma sepultura, cavar, chegar ao caixão, arrancar o esqueleto, limpá-lo. Para quê? Para vender a quem? Uma faculdade não compra esqueletos que chegam sem procedência, denominação de origem controlada, sem autenticação e prazo de validade. Além disso, como fazer preço? Quanto vale um esqueleto?

Os três estavam à nossa frente, eu disse: “Vamos chegar neles e perguntar”. Nessa hora, alguém nos chamou nos viramos para responder. Foi meio minuto. Quando nos voltamos, o trio tinha desaparecido. Teriam ido ao McDonald’s, que tem uma entrada pela Lisboa, para pedir um lanche feliz? Ou no restaurante do Jun Sakamoto, dos mais caros da cidade? Jun deixaria um esqueleto entrar e pedir uma de suas sofisticadas comidas? Porém, argumentou Márcia, esqueletos nada comem, não precisam de regimes, de nada, aquela magreza dura até que eles se desfaçam voltando ao pó. Ou os três teriam entrado em um daqueles prédios? 

Mesmo assim, seguimos até o bar General, na esquina da Rebouças, que é uma animação só, povoado por jovens alegres e ruidosos. Talvez tivessem levado o esqueleto ali para tirar uma, provocar. Quem não conhece a história do escafandrista que, certo dia, vestido com o traje de mergulhador, entrou no Bar do Veloso (hoje Garota de Ipanema), em Ipanema, point dos descolados do Rio de Janeiro, sentou-se e pediu um chope? Chopes, em paulistês. Ficou ali, ninguém olhou para ele, ninguém comentou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Nada espantava, tudo era permitido. Dizem que o poeta Ferreira Gullar, hoje na Academia Brasileira, de repente, gritou:

“Vamos parar de fingir que não estamos vendo um escafandrista tomando chope, no meio da gente, como se isso fosse uma coisa normal. Olhem, ali está o escafandrista!”

Não, o esqueleto não passara pelo bar General. Também não pode ter se dissolvido no ar. Quem sabe onde está o esqueleto que passeou pela rua Lisboa ao luar? Como não gostar de uma cidade em que esqueletos perambulam pelas ruas e de repente se dissolvem? Como não se lembrar daquela história antiga do rapaz que dançou o baile inteiro com uma jovem linda e sensualíssima e foi levá-la para casa? Quando chegou, ela morava no cemitério e desapareceu diante do portão.

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