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O mistério do bem-casado

Os convidados arriscavam o terno caro e a clutch fabulosa da dama com doces afanados

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

11 de dezembro de 2019 | 03h00

Há algum tempo, fui a um casamento do estilo “evento da década”. Era a reunião de duas fortunas enamoradas. Os noivos refulgiam dinheiro e felicidade. Os dentes, o corpo, as roupas, tudo dizia de forma elegante e forte: nós somos parte de um grupo pequeno. Os convidados seguiam, quase todos, a mesma toada. A igreja transbordava em cascatas de orquídeas refinadas. Resolvia-se, ali, um mistério histórico: onde foi parar o ouro extraído de Serra Pelada? Estava nos adornos dos colos belíssimos e pulsos refinados. O PIB brasileiro se encontrava sob afrescos que pretendiam reproduzir a Capela Sistina. Dinheiro tradicional fala baixo no tom de voz, todavia não deixa que alguém se engane. Ali o imenso rio da riqueza colonial, reforçada por tempestades e cascatas no Império e na República, desaguava o caudal de séculos de acumulação. 

A festa que se seguiu foi ainda impactante. A decoração remetia aos jardins suspensos da Babilônia. O banquete era sofisticado e, claro, outra característica do dinheiro antigo: pouca gente comia. Bebia-se mais daquele líquido que um abade dizia ser a capacidade de “engarrafar estrelas”. Ricos são, escassamente, afeitos à comida. Eu, que de tudo pegava um par, como Noé preenchendo a arca, observava as pessoas que beliscavam aqui e acolá sem entusiasmo. A riqueza é frugal no consumo e opulenta na oferta.

Os noivos estavam genuinamente felizes. Ricos de verdade não escancaram dentes, apenas sorriem. Gargalhadas indicam CPF fraco. Quando digo rico, não me refiro a gente como eu que, de quando em vez, compra uma passagem executiva ou, tendo recebido uma viagem paga pelo trabalho, adiciona alguns dólares e ingressa como penetra na primeira classe. Não, querida leitora e estimado leitor! Não falo de gente comum da classe executiva ou bissextos da primeira como eu sou ou fui. Refiro-me aos que o próprio avião e jamais supuseram outra viagem. No máximo, em algum momento, tiveram de tomar um voo comercial, mas sempre entraram para o lado esquerdo em direção à “reserva natural” onde a vida pode existir livre mais à frente. E mais seleta...

Ao contrário do que imagina o senso comum, o dinheiro tradicional e grande não é arrogante por natureza. O novo-rico pode ser, a classe média com frequência é: o aristocrata endinheirado é muito agradável e cordato. Ele sorri para o atendente e diz algo simpático. Por vezes, sinto que se trata de um experimento antropológico, da gentileza do pesquisador no meio da ilha de Samoa. Um médico amigo meu disse, em uma viagem, que os milionários tinham um interesse genuíno, porém limitado, em pessoas como nós. Observam-nos, conversam, sorriem, tentam entender nosso mundo e, logo depois, se cansam. 

A música era linda, a bebida impressionava, as conversas leves e boas, porém, eu precisava ir embora. Era um dia de semana. Festas muito elegantes ocorrem durante a semana. Ao sair, uma mesa com decoração impactante apresentava outra maravilha: pirâmides de doces bem-casados. Uma especialista mineira era a autora, as embalagens denunciavam um trabalho de ourivesaria em papel e o monte proclamava: “Comam-me”! Algumas pessoas saíam comigo. Reconheci, ali, o controlador de um banco, uma patronesse de artes, um empresário de prestígio. Surpresa: todos locupletavam os bolsos dos ternos e as bolsas com os “bem-casados”. Claro, eram pessoas que poderiam comprar a doçaria da artesã mineira, alguns talvez, todo o Estado de Minas Gerais. O que levava a essa súbita voracidade? Levar um amuleto de felicidade para casa? Comer escondido com requintes de glutonaria (o que não fora feito até então na festa)? Ou, simplesmente, a visão da abundância despertava um mundo novo mesmo para quem possuísse centenárias raízes douradas? 

O bem-casado é um mistério. Um pão de ló e um doce de leite. São Lúcio e Santa Bona, italianos casados e felizes, foram, talvez, a inspiração para os bem-casados. Vi uma imagem deles no Largo da Carioca, na Igreja de Santo Antônio. Marido e mulher unidos por uma camada de doce de leite que os aproxima e aperfeiçoa. O doce despertou genéricos contemporâneos como “bem formados”, “bem vividos”, etc. Liberalidades de uma terra de açúcar e delícias como o Brasil de base lusitana. 

Bem, os deliciosos bem-casados tinham conseguido quebrar a formalidade da corte aristocrática. Sim, os abastados convidados arriscavam o terno caro e a clutch fabulosa da dama com guloseimas afanadas. Talvez a última avara seja forte. O responsável pela mesa afirmava que a quantidade prevista implicava tal hipótese. Como ele me segredou: “Professor, tanto faz o dinheiro, todos enchem a mão com bem-casados”. Fiquei feliz: o Brasil não se entende na política e o ressentimento social é gigantesco por aqui. Com razão. E... se começássemos a distribuir bem-casados para todos? Melhoraria o nível? Nós nos tornaríamos irmãos no doce, iguais diante do bolinho, mais do que na lei? Não sei, porém comer é ótimo e eu amo bem-casados. Os noivos seguem felizes até hoje e eu engordei um pouco porque também enchi meu terno com a iguaria. Para ter esperança, às vezes, é necessário comer um doce. 

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