O MIS será demolido

Mais ativa instituição cultural de São Paulo nos anos 80 e uma das maiores reservas audiovisuais do País, o Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo vai ser demolido em agosto. Das ruínas do velho museu da Avenida Europa renascerá um novo edifício, cujo projeto está entregue ao Escritório Brasil de Arquitetura e deverá estar pronto em 45 dias."É uma decorrência natural da evolução, para que o MIS se torne também o museu das novas tecnologias e receba todas as áreas da arte industrializada ", explica Annelise Godoy, diretora-executiva da Sociedade Amigos do Museu da Imagem e do Som, que coordena o projeto. Atualmente, diz Annelise, o MIS não oferece condições físicas para abrigar as novas tecnologias da era da informática."É como o País das Maravilhas de Alice - a cada porta ou parede que se abre surge um mundo novo", diz a diretora. "Não queria usar o termo gambiarra, mas é o que predomina hoje no edifício, que nem sequer tem um mapa claro da distribuição das partes hidráulica e elétrica", afirma."Está tudo ainda muito no início", diz o arquiteto Francisco Fanucci, do Escritório Brasil de Arquitetura, a quem caberá dar forma ao novo museu. "O que tentaremos é certamente criar um espaço mais especializado."O grande desafio dos arquitetos, no entanto, deverá ser a grita dos moradores do Jardim Europa, onde fica o museu. Logo após a sua instalação, em 1977, um grupo de pessoas do bairro foi à Justiça contra o edifício recém-construído, alegando que o prédio, de três andares, infringia a lei de zoneamento (que só permite até dois pavimentos).Um juiz chegou a ordenar a demolição do museu, em primeira instância. No seu despacho, ele argumentava que a construção, "além de desvalorizar os imóveis vizinhos, por descaracterizar o local como zona estritamente residencial, o que bastaria para legitimar a presente ação, ainda causa os inconvenientes decorrentes do afluxo de elevado número de pessoas, entre funcionários e usuários do prédio, do tráfego e estacionamento de veículos, do natural aumento de ruído, etc." Na verdade, o que se viu nos anos seguintes foi uma tranqüila acomodação do MIS à vizinhança.Na época, o arquiteto Carlos Alberto de Cerqueira Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e integrante do Condephaat escreveu saboroso artigo em jornal de São Paulo intitulado O MIS e os Ricos, no qual ironizava os esforços dos endinheirados de São Paulo em fuga pela urbe, em busca dos melhores lugares de moradia."Essa é a condição do progresso e do tempo, que inexoravelmente vai obrigando a reciclagens periódicas os bens culturais que desejarmos conservar", escreveu Lemos. "Para o patrimônio ambiental urbano é vital essa adaptação às novas situações e aos novos programas."A nova concepção do MIS já envolve, desde já, a construção de dois pavimentos subterrâneos, que serão utilizados como garagens - uma das deficiências do museu atualmente. Mas todo o projeto ainda está por ser definido."As sucessivas adaptações transformaram o MIS num museu labiríntico, um museu de corredores que não propicia eventos específicos, inviabilizados pelo próprio espaço físico", argumenta Annelise Godoy. A reconstrução do MIS está estimada em R$ 5 milhões e o dinheiro deverá ser totalmente captado na iniciativa privada, numa campanha que começa em 15 dias. A captação de recursos, espera Annelise, deverá ser facilitada pela mudança jurídica que o museu sofrerá em março, quando se tornará uma Organização Social. O MIS foi criado em 1970 e, até 1974, perambulou por diversos endereços. Inicialmente, ocupou alguns salões do Palácio dos Campos Elíseos. Depois, passou para um sobrado em vias de demolição na Alameda Nothman, onde ficou sem eletricidade durante um bom tempo, por motivos de segurança.Dali, o museu foi transferido para a Avenida Paulista, onde funcionava na época a Secretaria de Cultura e Turismo. O museu só chegou à Avenida Europa em janeiro de 1975, ocupando um palacete moderno já em construção e que começou a ser adaptado para receber a instituição.As sucessivas adaptações não resultaram em algo funcional. Segundo a Sociedade Amigos do Museu da Imagem e do Som, não há como passar pelas paredes novos cabeamentos e uma rede de fibras óticas, adequada às novas tecnologias.Durante a reconstrução, o MIS deverá ficar fechado por um ano. Para que seu acervo não fique ocioso, a associação quer montar diversos "MIS avançados" pela cidade, levando o acervo para exibições em locais diferentes.

Agencia Estado,

31 de janeiro de 2001 | 19h47

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