O milagre do tradicional moderno

Robert Stern é autor do projeto da Biblioteca George W. Bush em Dallas, onde está acervo do ex-presidente

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h08

Foi aberta no dia 1.º deste mês, nos Estados Unidos, a biblioteca e museu do ex-presidente George W. Bush (que governou o País entre 2001 e 2009), num edifício de 21 mil m² projetado pelo arquiteto Robert A. M. Stern dentro do câmpus da Southern Methodist University, em Dallas, Texas (local que concentra cerca de 11 mil estudantes).

O próprio Bush fez piada dizendo que a George W. Bush Presidential Library and Museum conteria "todos os livros que eu jamais li". Ele se graduou em Yale em 1968. O prédio de Robert Stern teria de concentrar os elementos necessários para expor essa visão de mundo de Bush, tão debatida em seu tempo, que consistia basicamente em nunca olhar pelo retrovisor para ver o que tinha acontecido lá atrás. A biblioteca de Bush permitiria esse olhar.

O local tem um café chamado Café 43 (Bush foi o 43.º presidente americano) e sua visitação já é disputada (300 tickets online são vendidos a cada hora). O maior atrativo interno é uma coleção de itens pessoais do ex-presidente, o que inclui a pistola que Saddam Hussein portava quando foi preso dentro de uma toca no Iraque.

O ex-presidente Bill Clinton disse que a biblioteca simbolizava "um grande exemplo da eterna luta de ex-presidentes americanos para reescrever a História". Mas o casal Bush tentou fazer algo sem essa pretensão, disse a ex-primeira-dama Laura Bush, que na realidade foi quem gerenciou a coisa toda. "George me disse: não faça disso um monumento para mim", ela contou. Bom, como George também disse que havia provas de que o Iraque produzia armas químicas, convém desconfiar dessa disposição.

Além dos 80 terabytes de informação eletrônica, de 70 milhões de documentos digitais e de todos os nomes dos mortos no atentado de 11 de setembro, em Nova York, que são exibidos em monitores enquanto passa a cobertura dos telejornais, a biblioteca usa moderníssimas técnicas de exibição, como os telões de 360 graus de LED num átrio de 67 pés de altura no centro do edifício, o Freedom Hall.

Mas há um aspecto que também é muito interessante de ser observado nesse esforço erguido com US$ 250 milhões (mais US$ 500 milhões de orçamento): a arquitetura elegante de Robert A.M. Stern, artista de 74 anos de Nova York que encabeça projetos na China, em Hong Kong e em Paris. Um desenho sob encomenda de um dos personagens ultraconservadores do nosso tempo poderia ser um projeto ousado? Stern parece ter acreditado que é possível fazer algo desafiador com a linguagem saturada do neoclássico.

"Eu não gosto da palavra neoclássico. Gosto de lidar com as tradições do local em que vou trabalhar", ele disse em uma entrevista ao New York Times. Assim, ele resolveu renovar o estilo que prevalece naquela região de Dallas, que ele chama de "georgiano acadêmico", e dar-lhe uma outra leitura. "Se algo muito tradicional pode ser pouco inspirador para alguns, pode ser muito inspirador para outros. Acho que a obsessão pelo novo novo novo é algo que é OK para aplicativos de computadores. Arquitetura trata de espaço e tempo no senso mais estrito dessas palavras."

Professor de arquitetura em Yale, Stern é um dinossauro muito admirado em seu métier. "Meu escritório é inteiramente dotado de computadores sofisticados, mas eu pessoalmente não uso o computador. Eu ainda desenho e faço esquetes. Eu amo modelos. Acho o computador uma ferramenta maravilhosa, mas tende a alienar os designers na sua relação entre olho, cérebro e mão. Os arquitetos que eu admiro, a maior parte deles, não usam o computador para desenhar; eles usam o computador para realizar seus projetos", disse Robert Stern.

"A senhora Bush sempre disse que esse edifício aqui não era a Casa Branca, mas que nós deveríamos procurar dar a ele a dignidade daquele gabinete lá", informou Kenneth Blasingame, designer de interiores, contratado para decorar os escritórios da George W. Bush Foundation, que funcionam dentro da biblioteca e incluem os escritórios pessoais de George e Laura Bush - Blasingame já trabalhava com os Bush desde os anos 1980. É como se fosse um escritório político, já que inclui até uma mesa para jantares de negócios em que se sentam até 36 pessoas.

Stern fez uma obra monumental, mas não faraônica, no projeto da biblioteca de Mr. Bush. "É cuidadosamente proporcional. Distingue elementos do passado, mas os obriga a responderem às expectativas do que um edifício do século 21 pede", avalia Stern à revista Architectural Digest. Isso inclui 15 mil m² de painéis solares e estratégias ecológicas para reduzir consumo, por exemplo de ar condicionado. Há um auditório para 360 pessoas, no qual se espera que estudantes, políticos e líderes de negócios organizem debates em torno de questões políticas - de direita, obviamente. "Todos nós da biblioteca e do museu estamos felizes de, após anos de planejamento e de moldar essa ideia, termos finalmente encontrado o momento e o lugar para dar à América sua 13.ª biblioteca presidencial", acrescentou Alan Lowe, diretor da Biblioteca Bush.

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