O milagre de saber inovar

A feliz parceria de Mário Nascimento com o Corpo de Dança do Amazonas

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2010 | 00h00

As colaborações entre um coreógrafo e uma companhia que constrói o seu repertório contratando distintos profissionais tendem a padronizar um certo tipo de dança. Contudo, o que acaba de acontecer entre Mário Nascimento e o Corpo de Dança do Amazonas merece ser destacado pelo tipo de contribuição que traz ao assunto. Seu resultado se chama Cabanagem e acaba de realizar a sua segunda temporada no Teatro Amazonas, em Manaus, cidade que é sede da companhia.

O programa começa com Mundo da Razão Presente, que tem concepção e coreografia de Ricardo Risuenho. Cabanagem está na segunda parte. Não é a primeira vez que Mário Nascimento trabalha com companhias desse perfil, mas por estar compartilhando o programa, criou-se uma situação que nos deixa bem claro: sim, algo pode ser mudado em uma companhia oficial que pratica o rodízio incessante de coreógrafos. A pergunta da qual se pode partir é a seguinte: por que, depois de um curto intervalo, o mesmo elenco parece outro? E ela nos leva a formular a seguinte hipótese: existirá algo no movimento que Mário Nascimento vem desenvolvendo autoralmente que funcione como uma espécie de ignição das melhores qualidades individuais de qualquer tipo de elenco?

Para buscar essas respostas, é fundamental deixar claro que a primeira obra cumpre o papel habitual em companhias de repertório. Está impecavelmente ensaiada, mas pasteurizada por aquele modo de dançar reduzido a uma apresentação dos materiais da sua partitura. Mundo da Razão Presente anuncia, no texto do programa, que está partindo do filósofo Hegel para abordar a loucura como algo que tem uma lógica própria e está em todos nós, buscando escapar da oposição "loucura X razão". Evidentemente, transformar a leitura de um filósofo da complexidade de Hegel em dança já tem seus problemas. Mas não são eles que mais importam aqui. Interessa observar que essa "naturalização" da loucura se distribui em quadros costurados com uma dramaturgia apoiada em personagens, mas não distingue personagem de dança de personagem de teatro - o que se transforma na sua fragilidade.

Questões como essa não constituem novidade no dia a dia de quem ensaia obras de coreógrafos variados. Não há elenco capaz de atender às especificidades implícitas no que cada um deles cria, daí a homogeneização que vai acontecendo. É nesse contexto que deve ser entendido o que sucede quando se volta do intervalo desse programa montado pelo Corpo de Dança do Amazonas. Nos espera uma surpresa, parece que estamos vendo outros bailarinos em cena.

Camadas. A dança deixa de se apoiar em corpos em uníssono, devotos da monocórdia, para se tornar um tecido feito de mais camadas - um tecido fiado pelos modos próprios de cada um dos corpos "dizer" a sua forma de resistir. Segundo o historiador Caio Prado Júnior, a Cabanagem (1835- 1840) foi o mais notável movimento popular do Brasil, o único em que as camadas pobres da população conseguiram ocupar o poder de toda uma província (a do Grão-Pará) com certa estabilidade. O que se vê em cena, dessa revolta, é justamente uma movimentação que salienta a luta, a revolta. Cada um dos 16 bailarinos tem a oportunidade de aparecer como intérprete, e isso cria uma outra atmosfera, fértil para que os desempenhos revelem uma companhia muito afinada.

O Corpo de Dança do Amazonas foi criado pelo governo do Estado em 1998 e tem hoje, na sua direção artística, Monique Andrade e Getúlio Lima. Que os méritos apontados por esse programa possam ter continuidade e atuem como um vírus contaminador do que virá por aí.

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