O México do século 19, pelo olhar de Rugendas

Uma atração de caráter artísticoe histórico imperdível é a exposição de óleos sobre papel deRugendas, que será inaugurada amanhã à noite no Memorial daAmérica Latina. A exposição itinerante tem seu núcleo centralnos trabalhos em que o artista alemão retrata a paisagem e anatureza mexicana em sua viagem pelo país nos anos 1830. Quasedois séculos depois, o interesse pelo registro científico eartístico o ligam de forma inquestionável a Eckhout, o grandepintor dos trópicos, com Frans Post. Há também na exposiçãoalguns exemplos de gravuras que representam os desenhos feitospor Rugendas no Brasil em sua estada no País na décadaanterior.As obras da fase mexicana no artista, que estãoitinerando pela América Latina (já tendo sido mostradas emBuenos Aires e que seguem após São Paulo para Havana, em Cuba),revelam a importância científica da obra de Rugendas que,seguindo as lições e os passos do naturalista Humboldt, buscoualiar a precisão científica, a necessidade de retratar a fauna ea flora de maneira precisa e cuidosa, à leitura pessoal,frisando artisticamente os aspectos mais relevantes. Como resumea curadora Renate Löschner, "Rugendas plasmou de forma gráficaas idéias de Humboldt sobre a representaçãoartístico-fisionômica da natureza tropical", tornando-se um dosartistas a melhor retratar a América Latina.Sua visão da riqueza paisagística mexicana, com seusimpressionantes contrastes, amplos descampados agrestes, quecontrastam com picos nevados, é encantadora e revela um grandeamadurecimento do artista. Como uma espécie de "cronistaartístico" (nas palavras de Renate), ele dirigia seu olhar atudo, registrando de maneira bastante particular tudo o que lhedespertava o interesse.Para isso desenvolveu uma técnica bastante particular,abandonando o desenho e adotando um estilo de execução rápida,gestual (ele chega a usar o cabo do pincel para dar maismovimento à pincelada), baseado no contraste de cores, que o fezser identificado muitas vezes como uma espécie de precursor doimpressionismo. "O frescor e a espontaneidade caracterizam suasobras; nelas, tudo se origina, com luz natural, a partir dascores. Por isso, Rugendas é realista quanto ao seu estilo eimpressionista na execução dos quadros", afirma Renate nocatálogo da mostra.Essas inovações são parcialmente responsáveis pelodescaso com que seus contemporâneos receberam seus trabalhos. Autilização recorrente que ele faz do contraste entre tons deazul e verde para representar de maneira mais fiel e intensa aspaisagens, por exemplo, chocava-se com as tradições, quepensavam ser essas duas cores incompatíveis. "Para nãorenunciar ao azul do céu, as árvores e os primeiros planos erampintados de marrom", explica Renate.No caso de Rugendas, as escolhas seguem critérios outrosque não os da Academia. Muitas vezes vemos em suas telas orequinte com que ele se dedica a reproduzir uma palmeira, usandoa figura humana muitas vezes apenas como elemento definidor dasgrandes escalas.A idéia de contraste o interessava tanto quanto asgrandes amplitudes mexicanas, retratando com grande freqüênciaas neves eternas de montes como o Pico de Orizaba sob a forteluz dos trópicos. Paisagens geladas ou lavas incandescentes devulcão, festas populares ou vales avermelhados típicos da região, tudo atraiu o interesse de Rugendas, que nos legou uma das maisbelas e ricas imagens da América.Rugendas no México. De terça a domingo, das 9 às 18horas. Memorial da América Latina - Galeria Marta Traba. AvenidaAuro Soares de Moura Andrade, 664, São Paulo,. 3823-4600). Até20/10. Inaugura hoje, às 19 horas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.