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O meu time

Em terra de cruzadas de bola, ser cristão ou mouro vira identidade; transforma-se em causa bélica

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2022 | 03h00

Eu tinha cinco anos quando meu pai levou os quatro filhos para assistir a uma partida de futebol. O local? O Estádio dos Eucaliptos, em São Leopoldo (RS). O time? O Aimoré, que, bravamente, ainda batalha pelo futebol da minha terra natal. 

Fiquei impressionado com os fogos de artifício e com o jogo, explicado pela voz didática do dr. Karnal. Na torcida, ouvi palavrões, algo interditado na minha casa. Fiquei impactado pela liberdade vocal do grupo que vociferava contra o time adversário. Uma pena que eu não me lembre, nem vagamente, de quem eram os filhos da p... que jogavam contra nós. Apenas soube, em tom bramado, que a mãe do juiz era uma mulher que ganhava a vida de forma ilícita e mediante contribuição financeira pelo uso do corpo. A testosterona e o clima de enfrentamento deformavam o português pudico que era corrente na minha casa. Meu pai recriminava o palavreado, porém, sorria, contradizendo a crítica com a atitude. Eu e meus irmãos entendemos, claro, que era errado insultar pessoas, porém, poderia ser divertido concentrar toda a dor e frustração da existência no inimigo de campo. Não poderíamos repetir a escatologia recém-aprendida, apenas sabíamos que estávamos do lado correto da história. 

Sempre que me perguntam por qual time eu torço, tenho de levar em conta que sou uma pessoa pública. Sim, pessoas muito mais amplas em influência declaram seus amores futebolísticos de forma clara e decisiva. Bolsonaro é palmeirense, creio. Corrijam-me os especialistas na biografia do presidente. Dizem que seu nome de batismo veio de um jogador famoso. Lula vibra pelo Corinthians. Cada um dos dois times deve levar a glória e o peso de ter torcedores assim. 

Dizer que sou Flamengo decepcionaria a honrada torcida do Fluminense. Declarar-me fã do Atlético? Uma parte expressiva dos mineiros terá resistência ao meu ser. Santista? Há tanta gente com intolerância estomacal a peixe... Cada escolha exclui uma metade ideal e parece conter raiva. Não se pode amar sem declarar, de forma sutil, algum ódio. 

Em terra de cruzadas de bola, ser cristão ou mouro vira identidade. Mais ainda: transforma-se em causa bélica. O futebol é um pouco a favor de um time e muito sobre ser contra outro. A camiseta é união, símbolo e veste de guerra. 

O bravo Aimoré foi pioneiro e é permanente no meu coração. É o time da minha cidade de origem. O azul do uniforme sempre constituiu uma boa cor no meu imaginário. O rosto indígena encontra eco na minha alma de historiador. Por fim, secundário, mas notável: ninguém, absolutamente ninguém, fica ofendido quando eu digo que torço pelo Aimoré. Não há inimigos. Não se criam maniqueísmos rápidos. Quase sempre tenho de explicar de onde é o time. Falo feliz dele, do estádio e da minha primeira partida na infância. 

No meu estado natal, a polarização não é recente. Lá, gremistas e colorados se enfrentam há décadas. A política gaúcha sempre girou em torno de chimangos e maragatos, faces de uma moeda antagônica e dependente. O Aimoré nunca fez parte de tais choques. É uma filiação doméstica reconhecida como válida e neutra. 

Lembrei-me do simpático Papa Francisco. Ele torce pelo San Lorenzo. Em minha projeção fictícia, trata-se de uma versão argentina do Aimoré. Será que o jovem Jorge Bergoglio teve a mesma experiência que eu no chamado estádio do El Gasómetro? Se sua Santidade declarasse amor ao Boca Juniors, talvez houvesse mais ataques ao trono de São Pedro. Não! Já o vi ganhando camiseta do San Lorenzo em plena praça de São Pedro. Ali, no coração da Cidade Eterna, o bispo supremo pode reinar nos corações do mundo católico torcendo por um time local. 

Queria garantir à brava torcida do Aimoré: se um dia o destino me elevar ao trono máximo da Igreja Católica, prometo, no momento da entronização solene como sucessor de São Pedro, sob a roupa branca, vestirei uma camiseta do Aimoré. Então, o mundo saberá que terminou o reinado do San Lorenzo e que a cabeça do bravo indígena aimoré estará lá no trono. As tabas ficarão em festa! Então, pelo poder da infalibilidade pontifícia, declararei que o Aimoré tem um título do mundial de clubes. E, assim, pelo poder supremo do Mestre concedido a Pedro (o que eu ligar na Terra será ligado no Céu e na sede do Aimoré) proclamarei a nova verdade. Neste dia, por pressão papal sobre dois jogadores de países católicos, Cristiano Ronaldo e Messi, ambos passarão a jogar pelo Aimoré e o nome glorioso do time superará a fama do passado. E, claro, fechando a tríade, Neymar será visto desfilando pela Rua Independência em São Leopoldo, temeroso de uma excomunhão ou um interdito pontifício. Abençoados pelo papa capilé (o gentílico da minha cidade é este: leopoldense ou capilé), o time dominará o cenário do futebol mundial. A marca vai ser comercializada em lojas pelo planeta. Haverá teses de doutorado sobre o fenômeno. Uma placa assinalará o lugar em que a criança assistiu ao primeiro jogo para, no futuro, coberto pelo poder pontifício, proporcionar o “milagre do Aimoré”. Há coisas que só pela fé, uma virtude teologal, como a esperança.

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