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O meu irmão

Meu irmão sempre foi o meu nêmesis. Desde cedo, competíamos em tudo: em quem ia tomar banho primeiro, em quem ganhava a maior bola de sorvete, quem era o filho preferido, quem estalava mais alto os dedos, quem mexia o Nescau da forma mais irritante. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2015 | 05h50

Quando eu era bebê, ele tentou furar meus olhos, numa suposta tentativa científica de “descobrir o mecanismo que faz a bolinha mexer”. Além disso, ele já simulou o enforcamento de uma das minhas bonecas no banheiro, ao passo que eu me esforçava por azucriná-lo de todas as formas previstas no Código Civil (o enforcamento da boneca foi um episódio memorável: lembro que havia sangue de ketchup nas paredes e que as minhas amigas choraram sem parar, passando a recusar os convites subsequentes para participar das festas do pijama lá em casa). 

O fato de eu considerá-lo um herói, conforme registrado em uma redação da primeira série, apenas contribuía para que ele se irritasse ainda mais. E redobrasse o empenho.

Nos idos de 1998, quando a internet era discada e a plebe só podia conectar após a meia-noite (porque de madrugada só contava um pulso), cumpríamos um rodízio muito severo no computador da casa. O primeiro horário era da meia-noite à uma. Então o indivíduo ia dormir, o outro empurrava o móvel de rodinhas e cumpria o turno da uma da madrugada até quanto aguentasse. O problema era que estudávamos de manhã e tínhamos que acordar às seis. 

Ainda que, estranhamente, o revezamento de internet não tenha trazido prejuízos ao nosso desempenho acadêmico, danificou muito a nossa já belicosa convivência - lembro de estourar meu turno em dois minutos e ser presenteada com o desligamento compulsório do computador da tomada. 

Naturalmente, minha mãe colocava os dois de castigo, ainda que a culpa fosse sempre dele.

Outro objeto de disputa era o banco da frente de um Fiat Fiorino onde meu pai nos levava para a escola, pois quem se sentasse ali podia controlar o rádio, ao passo que o outro ficava jogado na caçamba do furgão, sacolejando junto com equipamentos frigoríficos e cilindros de gás refrigerante. Nesse caso também seguíamos um rodízio, com o agravante de que às vezes o passageiro da frente escolhia uma rádio estranha só para irritar. “Você nunca gostou de sertanejo!”, eu gritava. “É o meu gênero preferido”, ele respondia, aumentando o volume (isso quando ele não deixava na estática entre duas estações).

Crescer não serviu de nada para mudar esse quadro. Até hoje, é como uma corrida armamentista: o Marcos publicou primeiro um livro, então eu tive que escrever mais sete. Ele foi para o Chile e comprou uma televisão, eu arrumei uns gatos e fui a um show de heavy metal. Ele teve um filho, eu adotei duas tartarugas. Eu peguei dengue, ele pegou pneumonia. Ele vai ter outro filho, eu aluguei um apartamento. 

E que fique aqui registrado que foi ele quem começou. 

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