O meticuloso ofício da escrita

Dois escritores de escrita sólida e alma tímida - o sergipano Francisco J. C. Dantas e o carioca Rubens Figueiredo revelaram profunda devoção à literatura na mesa ocorrida no início da tarde de ontem na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, cuja décima edição terminou ontem, na cidade fluminense.

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2012 | 03h08

Ciosos de seu ofício, Dantas e Figueiredo procuraram detalhar a forma com que trabalham com a escrita.

Professor da rede pública, Figueiredo contou que aproveitou a convivência com experiências distintas com seus alunos para perceber como aquela vivência estava alheia à literatura, atividade que parece traçar um anel mágico com a capacidade de se isentar dos processos históricos e das relações sociais. "Assim, passei a ver a literatura como uma contribuição a partir de uma visão crítica", disse.

Com isso, ele partiu de momentos banais, que pouco chamam a atenção, para, ao exaltá-los, torná-los assim visíveis.

Já Dantas, depois de lembrar do cinquentenário da morte de William Faulkner, leu um trecho da prosa do americano, que lhe fornece substância para moldar seus livros. "Ele, assim como outros autores, buscavam criar um mundo particular que, na verdade, era universal. Por conta disso, o particular torna-se plenamente coletivo."

Segundo ele, o escritor não pode ser maniqueísta. Foi o que fez em Os Desvalidos, agora reeditado pela Alfaguara, que traz como protagonista um personagem controverso: o cangaceiro Virgulino Ferreira, o Lampião.

"Procurei mostrar seu lado mais conhecido, o selvagem mas, ao mesmo tempo, seus momentos interiores, aqueles que quase o aproximam do bem", afirmou. "Acredito que o mérito do livro está em se situar na ambiguidade - e só consigo isso porque sempre situo meus romances na minha região de Sergipe, que está embutida em mim sem que eu possa fazer algo."

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