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O mestre vive

Já Antonio Candido, não há, no universo literário, quem o desconheça, ao menos de nome e reputação

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2018 | 02h00

Num dos muros da Universidade de Bolonha, na Itália, alguém grafitou a seguinte frase: “Antonio Candido vive”. Em letras lilases. Roberto Vecchi, professor italiano que ensina literatura brasileira naquela universidade, só viu a pichação no início do mês. E sentiu-se orgulhoso, pois desconfia que o pichador seja um de seus alunos; ou “uma aluna, pelo tipo de escrita”, quem sabe a mesma que há dias apareceu na aula com um “Antonio Candido vive” tatuado no gesso de seu braço fraturado.

Volta e meia citado e reverenciado em cursos e palestras sobre literatura brasileira no exterior, Antonio Candido sempre foi muito querido pelos pupilos do prof. Vecchi. “É bonito quando os alunos percebem algo de profundo que vai além da própria aula de quem leciona”, comentou Vecchi num e-mail para Claudiney Ferreira, responsável pelo Ocupação Antonio Candido, evento que o Itaú Cultural inaugurou esta semana em homenagem ao nosso maior crítico literário, cujo centenário se comemora daqui a exatos 60 dias.

O que terá motivado a pichação? Um ano da morte do professor, ocorrida em maio do ano passado, ou seu próximo centenário? É de se supor que alunos e professores de outros departamentos tenham reagido ao grafite com a mesma perplexidade despertada pelo enigmático “Kilroy was here” (Kilroy passou por aqui), pichado à sorrelfa e por mãos misteriosas nos mais disparatados locais, durante a 2.ª Guerra Mundial. 

Nunca se soube ao certo quem foi Kilroy. Já Antonio Candido, não há, no universo literário, quem o desconheça, ao menos de nome e reputação. Vivo ele, sem dúvida, continua, perenizado por seus livros e os cursos universitários que, aqui e lá fora, se inspiram em seus sábios ensinamentos. 

Não tive a sorte nem a honra de privar da amizade do professor, embora compartilhássemos um bocado de amigos comuns, a começar por suas filhas, em especial a designer e editora Ana Luísa Escorel, autora das capas de dois livros meus, e seu genro, o cineasta Eduardo Escorel. A bem dizer, mal conheci o professor pessoalmente. Mas ele, de uma feita, me serviu de porteiro.

Quando a ensaísta Gilda Mello e Souza, mulher de Antonio Candido, lançou O Espírito das Roupas: A Moda no Século 19, em abril de 1987, fui entrevistá-la para a Folha de S. Paulo, num apartamento vizinho ao de Ana Luísa, no bairro carioca do Jardim Botânico. O prédio em que o casal Mello e Souza passava sua habitual temporada no Rio não tinha porteiro à tarde. De modo que, ao chegar, apertei a campainha do interfone, e uma voz masculina atendeu: “Um momento, que vou descer pra abrir a porta”. Em menos de um minuto, a tal voz desceu e me fez entrar. Entre surpreso e embevecido, cumprimentei o professor; pensei em dizer-lhe o quanto o admirava, que aquela era mais uma porta que ele abria para mim, mas fiquei mudo, limitando-me a apreciar sua inabalável elegância. Como era chique Antonio Candido.

Quase 20 anos mais tarde, empenhado em montar uma imaginária equipe de futebol integrada, exclusivamente, por intelectuais botafoguenses, procurei-o para confirmar se em seu coração de fato batia um coração alvinegro. Batia; fruto de uma antiga simpatia pelo bairro onde o clube da estrela solitária nasceu e glorificou-se. E foi assim que o professor acabou fechando o ataque do meu time-cabeça do Botafogo, ao lado de Glauber Rocha, Otto Lara Resende, Luis Fernando Verissimo e Ivan Lessa.

A descoberta da pichação em Bolonha coincidiu com um curso do professor Vecchi sobre o ensaio Esquema de Machado de Assis, que foi um texto originalmente lido na Universidade da Flórida (em Gainesville) e na Universidade do Wisconsin (Madison), há exatos 50 anos, e publicado pela primeira vez na coletânea Vários Escritos (Editora Duas Cidades). 

É um inventário modelar da superioridade e modernidade literárias de Machado e dos equívocos e acertos de seus exegetas. Antonio Candido privilegia, com razão, o estudo de seu antigo mestre Roger Bastide, dos primeiros a espanar a suspeita de que Machado não era autenticamente brasileiro, que olhava o Brasil à distância, mais parecia um ironista francês, cego às entranhas do País e labéus que tais. Bastide o considerava o “mais brasileiro” de nossos escritores, mais até que Euclides da Cunha (“ornamental para inglês ver”), pois Machado, resume Antonio Candido, “dava universalidade ao seu país pela exploração, em nosso contexto, dos temas essenciais.” 

Toda vez que Glauber Rocha nos (ou a mim, ao menos) aborrecia com suas verrinas contra Machado, em conversas, entrevistas e até por escrito (“Machado é uma merda... um escritor reacionário”), eu lhe recomendava a leitura do ensaio de Antonio Candido. Se afinal o leu, não se convenceu. Embora, para espanto de muitos, tenha cogitado filmar Memórias Póstumas de Brás Cubas, dois anos antes de morrer avisou à praça que desistira da empreitada. “Na terceira leitura, tive a confirmação do que já suspeitava: Machado é um escritor reacionário”, desabafou numa carta de 1979, reiterando sua preferência não por Euclides, mas por José de Alencar. 

Não precisei reler Machado para me convencer do contrário. 

De todo modo, apesar de morto, Brás Cubas vive. Como Glauber. E como Antonio Candido. 

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