Mila Burns/Gumbo Media/Divulgação
Mila Burns/Gumbo Media/Divulgação

O mesmo Barack Obama

Admirador confesso do presidente, biógrafo fala dos dois anos de mandato

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2011 | 00h00

David Remnick não ficaria constrangido se, ao encarar o espelho, visse Barack Obama. Jornalista de discurso sóbrio, Remnick não esconde a admiração pelo 44.º presidente dos Estados Unidos. Exibe uma inteligência racional semelhante à de Obama. Editor-chefe da revista New Yorker desde 1998, ele transformou a atração pelo político democrata em uma caudalosa biografia, lançada no ano passado. A Ponte - Vida e Ascensão de Barack Obama (Companhia das Letras) ganhou agora, nos EUA, a versão em brochura. Fez sucesso ao propor um retrato de Obama até a eleição para presidente em 2008. O homem apresentado no livro, segundo Remnick, continua o mesmo até hoje, passados mais de dois anos de mandato.

"Exceto pelos cabelos que ficaram mais brancos, Obama não mudou nada", disse o jornalista em palestra ocorrida anteontem no instituto 92nd Street Y, em Manhattan. "E não estou desapontado com o governo dele", completou o biógrafo, um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, deste ano. No bate-papo mediado por Larissa MacFarquhar, também jornalista da New Yorker, Remnick explicou que o seu trabalho "não é apoiar o Obama nem transformar a revista que dirige em um veículo chapa-branca". Mas, para ele, os EUA teriam piorado se John McCain, o então candidato republicano, fosse o vitorioso. "A economia do país estaria mais debilitada; o Exército não aceitaria os homossexuais; e 30 milhões de pessoas permaneceriam sem cobertura não fosse a reforma na saúde."

Na classificação de Remnick, Obama é um "liberal pragmático". "O seu compromisso é evitar o radicalismo." Impressiona muito, segundo o biógrafo, o controle do presidente norte-americano. "Ele calcula cada milímetro do que fala", diz. "Transcrevendo a gravação de uma entrevista com ele, era capaz de ouvir o tique-taque do relógio entre as pausas das frases: ele não usa expressões como ah ou hum para retomar o raciocínio." "Político convencional, calmo e correto", o atual presidente dos EUA quebrou uma regra durante o seu mandato - ele se apresenta sozinho no cenário internacional, ao contrário dos antecessores. "Bill Clinton tinha Helmut Kohl a tiracolo, Roosevelt aparecia com Churchill." Um dos poucos reparos de Remnick foi sobre a manutenção de tropas no Afeganistão. "Esperávamos que ele fosse dar um fim definitivo à guerra logo depois de tomar posse."

Remnick abordou na palestra a tese principal da biografia. "O apelo de Obama durante a campanha tem a ver com a capacidade de relacionar a sua história pessoal com a história dos EUA." O jovem inteligente e elegante se oferecia como reflexo das ambições e esperanças dos norte-americanos. Existe, porém, uma sutileza nessa afirmação. "A única coisa radical em Obama é ele ser o primeiro afro-americano eleito presidente", diz. "Mas as pessoas ainda se chocam com o fato de ele não dar muita importância para a questão racial." Remnick reconhece que Obama não vingaria sem a luta pelos direitos civis nos anos 60 e sem líderes negros como Martin Luther King. Embora tenha encontrado o verdadeiro lar em Chicago, em meio à comunidade de afro-americanos, o atual presidente é produto de experiências ocorridas em lugares diversos, como Havaí, Califórnia, Nova York e Indonésia. Barack Obama, diz o editor-chefe da New Yorker, teve de criar uma identidade própria, assim como vêm fazendo os EUA desde a independência.

A Ponte deve o seu título a uma frase do congressista John Lewis. "Barack Obama é o que há no final daquela ponte em Selma." É uma referência à ponte Edmund Pettus localizada em Selma, Alabama, que serviu de palco para um ataque sangrento contra manifestantes pelos direitos civis - Lewis era um deles - perpetrado por tropas do Estado. Ocorrido em 7 de março de 1965, o trágico evento ajudou na aprovação do Voting Rights Act (Lei de Direito ao Voto). Filho de um queniano com uma branca do Kansas, Obama é, segundo Remnick, "o primeiro presidente a representar a diversidade da vida norte-americana".

Respeitado pela calma em um cargo propício para o comportamento neurótico, no que se parece com o seu biografado, Remnick dá como certa a reeleição de Obama. "Mesmo com a taxa de desemprego beirando os 10%, ele vai se reeleger, pois hoje nenhum candidato republicano está à altura de ser o seu rival", diz. "E claro que nem no meu pior pesadelo a Sarah Palin, uma demagoga, poderia ser presidente." Se a ex-governadora do Alasca chegasse à Presidência, David Remnick sentiria como sua a derrota de Barack Obama.

A Ponte - Vida e Ascensão de Barack Obama

Autor: David Remnick

Tradução: Celso Nogueira e Isa Maria Lando

Editora: Companhia das Letras (720 págs., R$ 65)

QUEM É

DAVID REMNICK

JORNALISTA E ESCRITOR

Editor-chefe da revista New Yorker desde 1998 e um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, em julho. Ele foi correspondente do Washington Post em Moscou e, em 1994, ganhou um Pulitzer pelo seu livro Lenin"s Tomb: The Last Days of the Soviet Empire.

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