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Janeiro é a época certa para perder o medo do teatro experimental

JASON ZINOMAN , THE NEW YORK TIMES , NOVA YORK , O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h11

Eis uma frase que você provavelmente jamais ouviu: "Boa notícia. Consegui entradas para ver uma peça experimental!". Isso porque a única coisa que parece menos atraente do que o "teatro experimental" talvez seja o de vanguarda", que lembra um francês com suéter de gola rolê se aproximando com uma espada. Além disso, para aqueles não versados neste gênero tão fértil - do qual NY talvez seja a capital mundial -, pode ser bem desencorajador.

"Eles fazem as pessoas pensarem em atores rolando nos seus fluídos corporais", disse Vallejo Gantner, diretor teatral. Aqueles fantasmas do passado teatral ainda estão por aí, mas o teatro experimental está muito mais acessível, diverso e dinâmico do que a sua imagem popular sugere. Especialmente este mês.

Janeiro é para o teatro experimental o que a temporada de festas de fim de ano é para os filmes de grande prestígio. Isso em grande parte porque a Association of Performing Arts Presenters colaborou na arrecadação de dinheiro para criar, há oito anos, o festival Under the Radar para realizar montagens teatrais na mesma ocasião em que ela faz sua conferência anual em NY. O que se tornou um mercado para produtores de todo o mundo verem novos trabalhos que talvez queiram levar para seus países. E este ano haverá mais três festivais além do Under the Radar: Coil Festival, Other Forces e American Realness.

As peças este mês podem parecer bizarras para algumas pessoas. Como qualquer gênero com décadas de tradição e artistas influentes, o teatro experimental tem as próprias convenções: narrativa não linear, multimídia, abstração, linguagem fragmentada, ruptura da quarta parede, dança se inserindo no drama, arte da interpretação confessional, provocação politicamente incorreta, desconstrução de textos clássicos, mistura de cultura popular e erudita.

Estes têm sido os pilares de muitos espetáculos originais, mas não são mais novidade. É difícil generalizar no caso de um gênero, mas o que une esse trabalho díspar, mais do que o seu conteúdo, é o processo por meio do qual ele é produzido e apresentado. Há uma continuidade: estes artistas raramente trocam o teatro pela TV ou filme. E se apresentam mais regularmente do que no caso da dramaturgia convencional, criando uma plateia fiel e, como trabalham com baixos orçamentos, estão autorizados a errar algumas vezes e refinar sua estética. Se passar um tempo suficiente conferindo essas peças, o estranho rapidamente vai se tornar familiar.

A melhor razão para ver o teatro experimental hoje não é porque ele é chocante ou radical, mas porque é bom. Será que vale a pena gastar centenas de dólares para ir à Broadway ver um musical excessivamente barulhento ou uma peça com um elenco de estrelas quando há alternativas profundas e vitais, a um preço razoável, que são parte de uma insigne tradição de NY? Agora este é o risco. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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