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O meridiano do MH17

Os serviços de inteligência ocidentais sabem o bastante. Um avião de passageiros com 298 pessoas a bordo foi derrubado por um míssil SA-11, fornecido pela Rússia a separatistas ucranianos cujo comandante é um messiânico ex (ou atual) membro do exército de Vladimir Putin.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2014 | 02h05

Sim, a cena do crime foi violada, os corpos se decompondo ao sol foram saqueados, os cartões de crédito dos mortos usados para compras, turistas pisotearam os escombros e, quem sabe, restos humanos, para tirar selfies.

A Holanda, um país de 16 milhões de habitantes, perdeu 193 de seus cidadãos. Quase todo holandês tem um parente, amigo ou amigo de amigo com alguma conexão à tragédia.

Quando a Rússia anexou a Crimeia em março, a União Europeia se comportou como os Três Macacos Sábios da lenda japonesa, tapando os olhos, ouvidos e a boca para evitar confronto com a autocracia que fornece mais de um terço do seu gás e do seu petróleo. O governo de David Cameron fez como a pessoa alta que se agacha para não se destacar no retrato de um grupo, o que não chega a surpreender, considerando o tráfico de influência de oligarcas russos em Londres.

A morte de vizinhos ucranianos, até mesmo antes da devastadora invasão de Gaza na última quinta-feira, parecia preocupar menos os europeus do que o drama palestino. Mas o assassinato em massa de 298 civis de 12 países num avião que decolou de uma capital europeia cruzou uma linha.

Um comentarista em Moscou, rara voz independente na bolha czarista do Kremlin, cunhou a expressão "linha de Lockerbie". Lockerbie é a cidade escocesa que testemunhou a explosão e queda do Boeing 747 da finada Pan Am com 259 pessoas, derrubado por uma bomba sob encomenda do também finado ditador líbio Muamar Kadafi. Há uma ligação entre os destroços espalhados por Lockerbie em 1988 e a morte violenta de Kadafi.

Mas, dito isso, Vladimir não é Muamar e a Líbia não era a Rússia. A linha de Lockerbie aqui é um meridiano psicológico que pode ser visto nas manchetes das bancas de jornais de Londres, também conhecida como Moscou-à-beira-do-Tâmisa, em que o nome "Putin" faz companhia a "assassino" e outros termos nada lisonjeiros. Aparece numa campanha viral de militares holandeses pedindo ao primeiro-ministro Mark Rutte para ir lutar na Ucrânia. O trajeto do Maracanã com a bola de 2018 a pária internacional pode ser tortuoso, mas também mais curto do que imaginamos. E, por falar em 2018, há comentaristas por aqui sugerindo boicotar os patrocinadores corporativos da Fifa e transferir a Copa para a Holanda, uma concorrente inicial a sediar 2018. Isso, sim, dói muito mais do que bloquear a conta de um oligarca em Nova York.

O que me leva a um comentário que desafiou minha credulidade, horas depois de o voo MH17 ser abatido. Enquanto se multiplicavam sinais de um ataque, Dilma Rousseff disse a jornalistas no Planalto:

"Tem um segmento da imprensa dizendo que este avião… que foi derrubado estava na rota da volta do avião do presidente Putin. Coincidia com o horário e com o percurso. Então, que o míssil poderia ser dirigido ao avião do presidente Putin".

Por onde começar? O "segmento da imprensa" era a mídia russa que afirma também que os corpos poderiam estar lá há meses e a Otan poderia ter derrubado o Boeing para testar lealdades.

O que leva a presidente de 200 milhões de brasileiros a embarcar nesta canoa furada de propaganda? E por que, enquanto escrevo, três dias depois da tragédia, em meio à indignação do mundo civilizado, a líder da sétima economia do mundo não se sente compelida a expressar luto pelo massacre de 298 civis inocentes? Esqueçamos, por um momento, a estadista. A avó do Gabriel não tem ganas de dizer algo sobre as 80 crianças mortas no voo MH17?

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