O mergulho nas origens, a busca pelo infinito e o desejo de saber

Espetáculo investiga a fundo o universo inquietante do contista Murilo Rubião

Crítica:César Augusto, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2010 | 00h00

O Amor e Outros Estranhos Rumores é um espetáculo do Grupo 3 de Teatro, cujo texto é uma adaptação de Silvia Gomez para os contos Bárbara, Os Três Nomes de Godofredo e Memórias do Contabilista Pedro Inácio, do autor mineiro Murilo Rubião, com direção de Yara de Novaes.

Murilo Rubião parece tratar em seus contos de temas como a relação amorosa, o absurdo da condição humana, a falta e talvez, mas principalmente, da metamorfose, utilizando o universo do fantástico. Ao contrário do que é comum nessa vertente literária, de acordo com a definição de Tzvetan Todorov, em vez de seus personagens se espantarem ou "hesitarem" com o que é "fantástico", eles parecem aceitá-lo como parte integrante do real, como se o extraordinário estivesse intimamente ligado às suas obsessões e desejos num jogo de espelhos. Na adaptação, Silvia Gomez, antes de introduzir os contos, cria uma cena inicial que mostra três personagens em uma busca inquietante: todos possuem uma passagem cuja hora e destino não estão definidas. Essa metáfora parece ir ao encontro do substrato muriliano: os personagens se metamorfoseiam, durante sua busca por algo intangível, como a explicação para sua origem no mundo e para seus desatinos amorosos, a busca pelo infinito ou a perda da memória de si e de seu entorno. Tudo isso, no fundo, talvez revele um imenso desejo de se saber.

Para adentrar nesse universo, Yara de Novaes lança mão de um cenário, criado por André Cortez, com diversas portas, passagens e paredes falsas (trabalho preciso do contrarregra Jardel Romão) que parecem remeter ao labirinto proposto, muitas vezes, por Rubião. A luz de Fábio Retti ressalta essa combinação. Com isso, a direção parece não se preocupar em somente ''iludir'' a plateia. Faz isso, mas ao mesmo tempo a torna cúmplice do procedimento teatral, como na cena do conto Bárbara, personagem que, na medida em que seus desejos são atendidos pelo marido, não cessa de comer, por isso não para de engordar. Um recurso simples de "encher" o figurino com ar ganha status de fantástico muriliano: em vez de o público se espantar, aceita o enigma teatral. Nesse sentido, a opção por caracterizar os três personagens homens de maneira igual, numa referência a Rubião, parece salientar o jogo de espelhos e duplos presente na textura de sua narrativa, assim como a presença do homem-coelho, cuja presença, por sua vez, pode parecer extraída do Império dos Sonhos de David Lynch, mas se refere muito mais às metamorfoses de Teleco, o coelhinho, personagem de outro conto do autor.

Elenco. Com relação às interpretações, Débora Falabella, Rodolfo Vaz, Maurício de Barros e Priscila Jorge entendem bem a sintaxe proposta pela direção. Todos são precisos tanto no uso da palavra, cuidando para que o texto seja dito sem ansiedade nem exasperação, como também na gestualidade, uma vez que qualquer gesto a mais poderia interferir na leitura do sentido do que se quer mostrar. Destacam-se, nesse sentido, os trabalhos de Débora como o contabilista Pedro Inácio e como as mulheres de Godofredo, e de Rodolfo, que o interpreta, conseguindo sustentar o alheamento de quem uma vez se emudeceu, diante da sucessão dos dias, da inexorabilidade do tempo, e que agora quer reencontrar o elo consigo mesmo, com o outro e com o entorno.

Dessa maneira, ao falar de seu quintal por meio da urdidura de Murilo Rubião, parece mesmo que o espetáculo convoca a plateia para uma reflexão universal a respeito do porquê de nossa presença nesse mundo e, com isso, ou talvez, por isso mesmo, o destino a que todos estamos submetidos: o absurdo da condição humana.

O AMOR E OUTROS ESTRANHOS RUMORES

Tuca. R. Monte Alegre, 1.024, 2626-0938. 6ª e sáb., 21h30; dom., 19h. R$ 30. Até 28/11.

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