O mergulho de Guayasamín na alma humana

Mostra com quase cem obras refaz a trajetória do pintor equatoriano que expressava como poucos a dor e o amor

Evandro Fadel / CURITIBA, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2010 | 00h00

Detentor ainda jovem de importantes prêmios internacionais, o pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín (1919-1999) conseguiu, com sua obra, abandonar uma vida de pobreza e tornar-se amigo de várias personalidades século 20, por ele retratadas. "Minha pintura está em dois mundos: da pele para dentro é um grito contra o racismo e a pobreza; da pele para fora é a síntese do tempo que me foi dado viver", costumava dizer. Esses mundos estão estampados em 98 obras, divididas em três séries, expostas no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999), em Curitiba, de hoje até o dia 25 de julho.

Filho de pai índio e mãe mestiça, mais velho de dez irmãos, Guayasamín começou a pintar paisagens com 8 anos para ajudar no sustento da família. Com 16 anos, a contragosto do pai, entrou na Escola de Belas Artes de Quito. A rebeldia contra injustiças aflorou cedo e por duas vezes foi expulso, mas era chamado de volta por ser o melhor aluno da escola.

Rockefeller. Em 1942, produziu Los Niños Muertos, um grito que o atormentava desde os 7 anos, quando a guerra civil fez tombar garotos na rua onde morava, entre eles o amigo Manjarrés. Sem vê-lo por dois dias, foi ao necrotério. A cena do que viu está na tela. Nesse mesmo ano, o empresário Nelson Rockefeller estava em Guayaquil para uma reunião e acabou visitando uma exposição de Guayasamín. Impressionado com os traços fortes, comprou sete obras e, um ano depois, patrocinou exposições em várias cidades norte-americanas, abrindo-lhe o caminho do mundo e proporcionando contato pessoal ou com as obras dos grandes mestres.

Ao terminar essa exposição, Guayasamín foi ao México, tornando-se assistente do muralista José Orozco, com quem aprendeu a técnica do afresco. De lá, percorreu toda a América Latina, revivendo sua infância de pobreza, enquanto observava a opressão sobre índios, negros e mestiços. De volta a Quito, começou a trabalhar em 103 quadros da coleção Caminho do Pranto. A cor da terra pinta rostos tristes, mulheres esquálidas, pessoas envelhecidas. "São quadros cheios de dor e de angústia", disse o curador da mostra, Pablo Guayasamín, de 67 anos, filho do pintor.

Hospedado na casa do jornalista venezuelano Miguel Otero Silva, ainda antes da primeira exposição com essas obras, vendeu 70. "A vida mudou 100%", destacou Pablo. Com as obras que restaram, Guayasamín participou das três principais bienais do mundo em meados da década de 50, ganhando o prêmio máximo em São Paulo, México e Barcelona. Com parte do dinheiro, viajou pela Espanha e pelos países socialistas, conheceu campos de concentração e conheceu as consequências das guerras, genocídios e ditaduras que se alastraram pelo século 20. Assim nasceu a série Idade da Ira, em que retrata essa violência.

Simpatizante de políticas esquerdistas, conheceu os principais líderes socialistas, retratou-os, mas não se envolveu. "Queria ter plena liberdade para dizer o que quisesse", afirmou seu filho. Dessa fase, os quadros apresentam contrastes entre branco e negro. O grito de desespero estampado nas telas retumba nos ouvidos. O homem aparece em dores e medos. "Minha pintura é para ferir, para arranhar e golpear o coração das pessoas, para mostrar o que o homem faz contra o homem", assim se referiu. É do poeta chileno Pablo Neruda o conselho: "Pense antes de entrar em sua pintura, porque não será fácil voltar."

Canto de amor. A terceira série de Guayasamín, Idade da Ternura, é um retorno ao amor, uma homenagem às mães do mundo e, sobretudo, à dele, que morreu com 45 anos. "Como ela teve dez filhos e dois abortos, toda a vida ele viu a mãe com uma criança no ventre e no sacrifício para criar a família numerosa", disse o curador. "Ele recorre a todas as cores possíveis e faz um canto de amor, uma convocatória para que os homens se deem as mãos e busquem um mundo melhor." Nessa fase, o otimismo do pintor aflora: "Apesar de tudo, não perdemos a fé no homem, em sua capacidade de se levantar e construir, porque a arte envolve a vida. É uma forma de amar."

Ele deixou mais de 6 mil obras de várias técnicas. E muitos ensinamentos: "Pintar é forma de oração da mesma forma que o grito. É quase atitude fisiológica e a grande consequência do amor e da solidão. Por isso, quero que tudo seja nítido, que a mensagem seja simples e direta. Não quero nada ao acaso, que cada figura, cada símbolo sejam essenciais; porque a obra de arte é a busca incessante de ser como os outros e não parecer com ninguém."

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