Imagem Leandro Karnal
Colunista
Leandro Karnal
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O Mensageiro

Dario III, último imperador persa, executou Charidemos por não ter gostado das notícias trazidas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2020 | 03h00

Os latinos diziam que não devemos matar o mensageiro (Ne nuntium necare). Era uma reflexão sábia que procurava evitar uma prática histórica. Dario III, o último imperador persa, executou Charidemos por não ter gostado das notícias trazidas. Pior, além de narrar a derrota para o governante, o embaixador ainda analisou que a culpa pelo desastre diante de Alexandre Magno passava por erros estratégicos do último Aquemênida.

Dario III tivera uma ascensão difícil ao trono. Intrigas de eunucos em meio a envenenamento de familiares e de rivais. Ele próprio escapou por pouco de morrer em meio ao pântano de adagas e taças fatais da corte. Já senhor da coroa do maior império visto até então, entregou-se a prazeres. Cronistas gregos (devemos levar em conta o interesse em atacar a figura do persa) falavam de um governante hedonista ao extremo, que chegava a oferecer prêmios para quem inventasse uma delícia nova que agradasse ao rei dos reis. Um general macedônio, após capturar parte da bagagem e da corte de Dario III, escreveu sobre a grande quantidade de concubinas músicas, escravos especializados em fazer guirlandas, misturadores de bebidas raras e um pelotão de perfumistas para o serviço imperial. A corte persa era um lugar de luxo que mal disfarçava os problemas imensos de governantes que buscavam autonomia (sátrapas), o avanço greco-macedônico e o colapso do modelo administrativo que havia sido gestado por Ciro. O mundo no qual o grande Dario vivia era um paraíso cercado de infernos que avançavam para o rei-deus.

O problema era similar ao de tantas outras comunidades de áulicos. A Cidade Proibida de Pequim isolou-se dos súditos do império chinês. Construída para apagar a memória da recente dominação mongol, introduziu entre os Ming uma capacidade de existir do núcleo decisório que quase flutuava acima do tecido social da China. O fenômeno se repete em Versalhes, construída por Luís XIV exatamente porque, quando menino, fora traumatizado pelos levantes violentos das Frondas. Era necessário afastar o poder da sociedade. O grupo de cortesãos persas, a cidade Ming e o Palácio de Versalhes guardam algo em comum: mostram o apogeu do afastamento entre Estado e Nação. No fim do processo? As cortes perdulárias e distantes vão ficando cada vez mais pesadas para os contribuintes. Talvez seja pior: antes de isso acontecer, cega o Estado. A nação (a totalidade da população e das suas forças produtivas) percebe que o projeto do governo é o poder em si e não o bem-estar de todos no território. Da mesma forma, recebendo recursos e impostos de todo lado, governantes divinizados passam a se considerar um bem em si. Atacá-los passa a ser crime de lesa-majestade e de lesa-pátria. Ou como preferia o tutor do Rei-Sol, o eloquente bispo Bossuet, levantar-se contra o rei sagrado e ungido era delito político e pecado mortal.

O mensageiro é o elo com o mundo real. Mimado, dotado de estatura física gigantesca, Dario não queria más notícias, especialmente alguma que falasse da sua incompetência logística na guerra. O mundo dele era de concubinas e de perfumistas. Más-novas fedem e o mensageiro é o único signo do real que ele contempla. Logo, a culpa deve ser do mensageiro. Cercado de aduladores que vivem do elogio e do louvor declarado, o governante perde contato com as queixas dos súditos. O que será mais agradável: cuidar do elegante bailado ao redor de Luís na noite brilhante do palácio ou ouvir uma mulher que perdeu sua casa para cobradores de impostos?

Povoado de eunucos (de fato ou de espírito), o grupo ao redor do soberano é lugar onde a grande questão de Estado é a fofoca pessoal, o insulto, a intriga e as disputas que, diante da sacra majestade, emitem a fala que mais agrade. Nos três exemplos que eu dei, o Estado personificado em um ser sagrado acaba se desligando da nação real. O mundo das guirlandas e bailarinas da Pérsia foi tomado por Alexandre Magno. Dario III terminou assassinado por um ex-colaborador. Os Ming foram apeados do poder por invasores manchus que tomaram o país. O novo poder foi seduzido pelo fausto do antigo e os estrangeiros instalaram-se no mesmo palácio para serem desalojados de lá por outras convulsões no século 20. Versalhes levaria alguns anos, mas acabou sendo invadida pelo povo. Seu ocupante perderia a cabeça. Não adiantou executar todo mensageiro que dissesse algo contra a ordem no mundo de aduladores poderosos. Um dia, a cabeça do monarca pode ser considerada inútil...

As monarquias diminuíram. Mensageiros foram substituídos pela imprensa. Atacar a mensagem não retarda a crise e jamais resolve o problema. Os Aquemênidas, os Bourbons e os Mings deram ouvidos a ministros e não a mensageiros. É sempre agradável ouvir aquilo que eu desejo. Ninguém deveria ter medo da mensagem ou raiva. Deveriam ter medo do povo. Ele é volúvel. No domingo, os eleitores gritaram: “Hosana ao Filho de Davi!”. Na sexta, berraram: “Crucifica-o!”. A culpa não é do evangelista, ele é apenas mensageiro da realidade. É preciso ter esperança na liberdade de imprensa.

Tudo o que sabemos sobre:
liberdade de imprensa

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.