O menino esperou 20 anos para nascer

Lembro a cena como se fosse ontem: uma tarde de calor escorchante. Estava em pé no meio da sala do apartamento e olhava em volta, procurando uma superfície segura para depositar o embrulho que trazia no colo. Nos meus braços, envolta em uma manta de algodão, minha filha de 3 dias não desconfiava do completo amadorismo da mãe, que julgava estar no oitavo mês de uma gravidez não planejada quando sentiu uma pontada estranha nas costas, no meio do fechamento do Jornal Nacional. Continuou trabalhando. Foi jantar com o marido num botequim pé-sujo de Botafogo. As pontadas continuaram e a estranha agitação foi temporariamente aplacada com a leitura do então muito debatido O Crepúsculo do Macho, de Fernando Gabeira. Como escreve bem o Gabeira. Ai, o que foi isso?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2012 | 04h36

O berço de madeira encomendado ainda estava a caminho. O pai corria atrás de mamadeiras e esterilizadores. As camisas de pagão do Ceará, de algodão pele de ovo, não tinham sido lavadas e o carrinho de bebê emprestado não tinha chegado. Pior: como uma das últimas a nascer, até então, na minha pequena família, nunca tinha estado na presença de um recém-nascido, a não ser através do vidro de um berçário de hospital.

A história de improvisação e quase desastres que cercou minha estreia na maternidade provoca horror na minha filha. Ela vai ler manuais, vai ser acompanhada por profissionais, vai discutir dietas e teorias neonatais com a paixão com que eu brigava com trotskistas no diretório da faculdade.

Mas, de tudo o que soneguei à minha filha, por imaturidade e falta de ambição, não sabia que estava dando a ela algo que só faria diferença décadas depois: o fato de ter engravidado jovem. Se eu viver o bastante para precisar de assistência como idosa, minha filha estará madura, com filhos crescidos e alguma estabilidade para ficar menos vulnerável ao meu declínio.

O fenômeno dos pais de meia-idade cresce em sociedades industrializadas. É mais do que uma vitória dos tratamentos de fertilidade. As consequências da paternidade e da maternidade adiada têm sido tratadas mais do ponto de vista econômico e psicológico. A indústria da fertilidade apresenta uma narrativa de triunfo, frequentemente triunfo feminista, sem desdobramentos negativos. Filhos de pais mais velhos desfrutam maior afluência e sabedoria que é fruto da maturidade.

Mas, recentemente, estudos médicos mostram com mais clareza que não apenas a idade da mãe pesa nessa equação. A idade do pai influi no aumento de inúmeras doenças, do autismo à esquizofrenia. Uma ciência que provoca crescente desconforto entre aspirantes à procriação adiada, a epigenética, documenta transmissão de mutações e há de provocar um exame sobre as práticas de fertilidade em laboratório.

Não preciso me debruçar sobre publicações médicas para observar o que mudou para pior. No começo, ao notar a idade das mães que empurram carrinhos no meu bairro, um epicentro de adoções e casais ambiciosos que adiam a primeira gravidez, olhava com admiração a elaborada dedicação ao ritual reprodutivo planejado. O sucesso profissional exige mais anos de instrução superior. Educação e saúde de boa qualidade se tornaram luxo. Mas estas crianças do meu bairro começaram a falar e se manifestar como pequenos Mussolinis. Dominam as refeições noturnas. Não conseguem se distrair sozinhas. São exibidas como troféus. Seus ombros suportam o mundo e ele pesa mais do que a mão de um adulto narcisista e ansioso.

Uma grande amiga engravidou pela primeira vez aos 42 anos. Outro dia, ela passou a tarde vendo uma peça na escola da filha, uma daquelas montagens intermináveis, que requerem nossas reservas de amor e orgulho materno. Na mesma semana, passei a tarde no teatro com a minha filha. No palco, Martha e George se destroçavam na clássica Quem Tem Medo de Virginia Woolf, de Edward Albee. Disfarcei meu orgulho materno ao ouvir a análise serena que ela fez sobre a dinâmica de um casal.

Conversava com um conhecido clínico geral nova-iorquino, autor de sucesso e especialista em saúde na terceira idade e perguntei por que os pais de meia-idade criam filhos tão ditatoriais, como se cada um deles fosse o herdeiro da coroa britânica? "Esta obsessão do pai idoso é biológica, evolucionária", ele disse. Como assim? Ele explicou: se você tem o primeiro filho ainda jovem, sabe, inconscientemente, que pode ter mais filhos. Seu instinto protetor é diferente. Se começa a ter filhos depois dos 40, sabe que suas chances de procriar são radicalmente reduzidas.

É impossível desvincular a fertilidade do mercado de trabalho hostil à procriação e da ideia de que procriar cedo é um problema da mulher. Quem sabe se os filhos dos chamados pais-avós, mais afligidos por mutações genéticas, problemas de desenvolvimento psicológico, expostos ao trauma da perda prematura dos pais e o fardo de cuidar de idosos no começo da vida profissional, vão redescobrir o susto e a maravilha do bebê que chega logo. Mesmo que ele ainda não tenha um berço para repousar.

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