O menino e o passarinho

– Você já viu alguma coisa mais linda do que uma revoada de pássaros ao anoitecer?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 02h00

Se essa história é difícil de acreditar é porque ela se passa na terra do Faz de Conta, onde passarinho fala. Foi o que o menino descobriu, quando ouviu o passarinho dizer – por nenhuma razão, só para implicar com ele:

– Passarinho é melhor do que gente.

Depois de se recuperar do susto, o menino perguntou:

– Como assim?

– Para começar – disse o passarinho – nós somos mais bonitos. Olhe essa plumagem. Olhe essa combinação de cores em dégradé. 

– Nos também somos bonitos – disse o menino.

– São nada.

– Olhe essa camisa cor de abóbora. Essas calças roxas...

– Que sua mãe comprou para você. A minha beleza nasceu comigo. Eu sou bonito de graça!

Enquanto o menino pensava numa resposta, o passarinho continuou:

– Vocês sabem voar? Nós sabemos.

– Nós também sabemos.

– Sabem nada.

– Temos aviões que nos levam para qualquer lugar. Atravessamos oceanos. Chegamos mais alto do que qualquer passarinho chegou. Já chegamos à Lua!

– Para voar em avião precisa comprar passagem. Entrar na fila do check-in. Despachar a bagagem, que pode se extraviar. E para ir mais longe do que qualquer passarinho já foi, precisam de foguetes e programas espaciais caros. Nós, para voar, só precisamos abrir as asas.

– Sim, certo, mas...

– Você já viu alguma coisa mais linda do que uma revoada de pássaros ao anoitecer? Não existe espetáculo sequer parecido, na Terra.

O menino pensou num desfile de escola de samba, mas decidiu não dizer nada. O passarinho tinha claramente vencido a discussão. Faltava só um golpe de misericórdia, para liquidar com o menino.

– E além de tudo, eu canto – disse o passarinho 

– Eu também – disse o menino.

– Canta nada. Ouça. 

E o passarinho começou a assoviar. Uma única frase, várias vezes. E o menino pediu:

– Canta outra.

– Como, outra? Esse é o meu canto.

E o menino começou a assoviar todas as músicas que conhecia, de Jorge Ben Jor à Marselhesa.

E o passarinho se afastou, lentamente, cabisbaixo, derrotado, e pensando:

– É, preciso variar meu repertório... 

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