O menestrel, quem diria, virou cineasta

Estreia de Oswaldo Montenegro na direção foi muito aplaudida no Cine PE

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Elenco certo. Paloma Duarte e Emílio Dantas, atores de Léo e Bia, e Oswaldo Montenegro: analogias entre Cristo e Lampião    

 

RECIFE

E o 14.º Cine PE esquentou sua competição com o forte programa duplo da quarta-feira à noite. Os curtas também deram uma melhorada - Sweet Karolynne, de Ana Bárbara Ramos, na mostra digital, e A Noite por Testemunha, de Bruno Torres, na de 35 mm -, mas foram os longas que levantaram a plateia. Os críticos faziam muxoxo para Léo e Bia, considerando o cantor e compositor Oswaldo Montenegro, em sua estreia na direção, como estranho no ninho. Ele surpreendeu com um filme forte e, principalmente, bem interpretado, no qual sua ex, Paloma Duarte, que também é produtora, surge como primeira grande candidata ao Calunga de melhor interpretação feminina. Léo e Bia é ficção e foi o segundo filme da noite. O primeiro foi o documentário Sequestro, de Wolney Atalla, já exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Foi aplaudidíssimo pelo filme. Se cair nas mãos de camelôs, logo estará à venda como Tropa de Elite 4 ou 5.

Na coletiva realizada ontem, Atalla revelou que o filme foi exibido em Los Angeles e já atraiu integrantes da Academia de Hollywood, que estão convencendo o diretor a inscrevê-lo na disputa do Oscar da categoria. Não é de hoje que o cinema brasileiro persegue o Oscar de melhor filme estrangeiro. Atalla poderia quebrar a escrita vencendo o de documentário. Embora ele diga que Um Dia de Setembro não foi seu modelo, existem fortes similaridades e o documentário de Kevin MacDonald sobre o massacre de atletas israelenses na Olimpíada de Munique ganhou o Oscar. Ambos adotam o partido de adaptar a linguagem do documentário para o thriller. Assim como Paloma Duarte já é candidata ao prêmio de atriz, Marcelo Moraes poderia muito bem repetir o Calunga que recebeu pela montagem de Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel.

Sequestro foi um filme complicado de fazer. O filme começou a surgir em 2001. Atalla fazia sucesso com o curta Janela Aberta. Era a época do sequestro de Washington Olivetto e a jornalistas que lhe perguntavam o que ia fazer, a seguir, o diretor respondeu impulsivamente que seria um filme sobre sequestros. Ele decidiu dar foco à indústria dos sequestros em São Paulo e à divisão da polícia que a combate. Os integrantes da DAS, Divisão Anti-Sequestro, são os intocáveis da polícia. Sobre muitos policiais, como sobre muitos políticos, pesa a suspeita da corrupção. Os "doutores" da DAS - todos os delegados são identificados por esse título honorífico - são modelos de integridade. Foram quatro anos para conseguir a autorização de filmar o acompanhamento de casos de sequestros, mais um de treinamento, para que os policiais se acostumassem à presença da equipe. Depois mais três para realização e edição.

O formato é de thriller. Violento, empolgante, com a música ritmando a ação. Atalla assume a tese de que a indústria dos sequestros nasce de operações militares da guerrilha continental. O sequestro de Olivetto é emblemático: foi sequestrado por integrantes do Movimento de Esquerda Revolucionária do Chile para financiar operações na América Central. Das ações ideológicas às criminosas comuns foi um passo. O filme tem um parti pris claro. Os policiais da DAS são mocinhos, sequestradores são bandidos. Para a eficiência do resultado contribuiu um detalhe que não é irrelevante. A pedido da própria polícia, Atalla e seus técnicos vestiram capuz e uniforme da DAS, passando-se por policiais. Era uma tática de sobrevivência. Afinal, colocar a cara a descoberto significava risco de morte. Vestir a camiseta, porém, pressupõe outra coisa. Pode-se questionar isso eticamente. O filme vira chapa branca. Mas é muito bem-feito e poderá fazer sucesso nos cinemas, na vertente Tropa de Elite. Curiosamente, o diretor que admitiu não conhecer Três Dias em Setembro revelou que seu modelo foi a série 24 Horas, com Kiefer Sutherland como o tira durão (e brutal) Jack Bauer.

Hiper-realismo. Oswaldo Montenegro não comentou - e nem lhe foi solicitado -, mas uma referência para o seu Léo e Bia pode ter sido Tio Vânia em Nova York, com que Louis Malle reformulou as relações entre cinema e teatro. O filme transpõe para a tela a peça do próprio Montenegro. Na coletiva, ele esclareceu que não se trata de teatro filmado. Durante anos, o artista (homem de música e artes cênicas) sonhou com essa transposição, mas buscava a linguagem para ela. Os shows hoje incorporam telões, o teatro incorpora o cinema, por que não fazer um filme que trafegasse entre linguagens? Léo e Bia mostra jovens que montam na pavorosa solidão de Brasília, em plena ditadura civil/militar, nos anos 1970 (como sustenta Cidadão Boilesen), um espetáculo musical sobre as analogias entre Cristo e Lampião. Eles enfrentam a censura, como a personagem Bia, apaixonada por Léo, o diretor, mas sem coragem de lutar por esse amor, enfrenta a repressão materna. Paloma Duarte interpreta uma personagem real (a assistente de direção no filme). A ação passa-se no palco. Não há realismo na descrição dos ambientes. Mas há um hiper-realismo das interpretações. Foi uma proposta arriscada de Oswaldo Montenegro, mas com o elenco certo - salvo uma ou outra exceção -, ele fez um filme muito interessante, que vale ver sem preconceito contra o cineasta neófito.

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