O melhor leitor argentino

Romance e tradução. Este é o tema da palestra que o escritor argentino Ricardo Piglia (Formas Breves, O Último Leitor, Respiração Artificial, Alvo Noturno, todos traduzidos pela Cia. das Letras) fará no Instituto Moreira Salles, segunda-feira em São Paulo, quarta no Rio. Se o tema fosse "romance e tradição", eu teria uma ideia mais precisa do teor de sua fala, pois há anos o leio, em ficção, ensaio, entrevistas e conversas (amiúde com seu colega mexicano Juan Villoro); mas tradução é assunto que em seus escritos sempre se insinua e se perde no meio de outros.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2011 | 03h09

Piglia tanto poderá abordar o translado de uma língua para outra, como o translado de uma linguagem para outra (a adaptação de uma obra literária para o cinema ou a acomodação de um escritor ao ofício de roteirista), mas dificilmente deixará de exaltar o tradutor como "o leitor perfeito" (porque sempre obrigado a uma leitura minuciosa do texto original), e é possível que reconte a curiosa história da primeira tradução chinesa de Dom Quixote, executada por um escritor monoglota a partir dos resumos orais que um assistente lhe fazia diariamente.

Há tempos que Piglia espera por uma tradução para o espanhol de A História de um Cavaleiro Louco (foi com este título que Dom Quixote saiu na China, em 1922), para tentar recriar, ficcionalmente, as conversas entre Lin Shu, o tradutor, e Chen Jialin, seu assistente, e também mensurar o grau de contaminação do romance pela língua e o contexto chineses. Não existe tradução (nem transcriação, como é o caso do Dom Quixote em chinês) isenta de contaminação, de parte a parte. Esse, aliás, é seu maior encanto, acredita Piglia. Para ele, é a literatura nacional que organiza, ordena e transforma a entrada dos textos estrangeiros e define a sua "situação de leitura". Quando nos apropriamos de certos elementos de criações estrangeiras o fazemos para estabelecer parentescos e alianças que são uma forma de aceitar ou negar tradições nacionais.

A revista Sur, fundamental plataforma de Borges, surgiu, no início dos anos 1930, como um baluarte da modernização da cultura argentina, o veículo que a libertaria da literatura gauchesca, sintonizando-a com as novidades europeias. Cumpriu o prometido, mas, como Piglia adora lembrar, seu vigilante radar jamais percebeu a presença em Buenos Aires do refinado e influente escritor de vanguarda polonês Witold Gombrowicz, que lá viveu mais de 20 anos.

O vigoroso e até certo ponto precoce cosmopolitismo da literatura argentina não dependeu do esforço isolado de Sur e publicações similares, mas também de editores menos badalados, como Santiago Rueda, que aproximaram seus patrícios de Proust, Joyce, Freud e do melhor da prosa norte-americana das primeiras décadas do século passado. O próprio Piglia descobriu Faulkner, Fitzgerald, Ford Madox Ford e outros pilares de sua formação literária por intermédio da pitoresca figura de Steve Ratliff, um nova-iorquino exilado em Mar del Plata e sua mais decisiva amizade literária. Mestre da leitura, Ratliff nunca publicou um livro. Como apenas o conheço pelas referências de seu mais renomado discípulo, posso estar redondamente enganado ao imaginá-lo como uma das matrizes de Emilio Renzi, o alter ego de Piglia desde as primeiras narrativas de A Invasão, também acometido, como Ratliff, do "mal de Montano" - ou seja, tudo ele vê e filtra através da literatura. O espanhol Enrique Vila-Matas cunhou a expressão, mas a doença, se assim podemos qualificá-la, tornou-se pandêmica. Sua mais recente "vítima", entre nós, é o gaúcho Antônio Xerxenesky, autor de A Página Assombrada por Fantasmas (Rocco), que, curiosamente, não inclui Piglia entre os seus fantasmas literários portenhos.

Outro tema na medida para Piglia seria o diário, o seu, os dos escritores que o precederam no cultivo desse híbrido literário, sem olvidar os de Emilio Renzi. No primeiro tratamento de Alvo Noturno, era Renzi quem protagonizava o capítulo de abertura, trancado numa casa, a curtir uma fossa e a folhear seus diários. Piglia mantém um diário desde os 17 anos (faz 71 em novembro), que foi crescendo "de forma monstruosa", até converter-se no "centro de sua escrita", no laboratório de sua ficção, ela própria um híbrido de relatos, anotações, análises, citações, ruminações e conversações, habilmente entrelaçados.

Há pelo menos 26 anos promete editá-los em livro. Por ora, dispersa-os a conta-gotas em suas obras ficcionais (com ou sem aspas) e, desde janeiro deste ano, no suplemento literário (Babelia) do El País. Já publicou meia dúzia de (trechos? capítulos?) inéditos no jornal espanhol. São páginas luminosas que recordam encontros, reflexões e experiências, dos quais não se lembraria se não os tivesse registrado no diário. Já falou da morte da mãe, de um antigo show de Gato Barbieri no Blue Note, de seus papos com James Irby (grande tradutor de Borges para o inglês e seu colega na Universidade de Princeton, onde Piglia leciona literatura de língua espanhola), de cinema e telesséries (adora Treme), de dilemas gramaticais (que tempo verbal usar num diário?), de projetos sempre adiados (como o de uma história da pintura a partir dos títulos dos quadros), da desimportância atual dos críticos literários, do Kindle que ganhou de presente de seus alunos no fim do último ano letivo.

O que achou do Kindle? "Uma máquina de ler mais dinâmica que o livro, porém mais fria."

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