O melhor de "Mr. Natural" vira livro

Depois de Fritz the Cat (2002) e Zap Comix (2003), a Conrad Editora acaba de lançar Mr. Natural (120 páginas, R$ 35,90), coletânea das aventuras do mais fraudulento dos gurus dos anos 60, uma das imortais criações do cartunista udigrudi Robert Crumb. É mais ou menos como se tivessem publicado a Bíblia dos quadrinhos marginais. Especialista em avacalhar com as utopias comportamentais da geração flower power, Robert Crumb tornou-se tão indesejável nos Estados Unidos, seu país de origem, que há 14 anos vive uma espécie de auto-exílio, no sul da França, com a mulher, a também desenhista Aline Kominsky (criadora da Weirdo).Mr. Natural, parece claro, satiriza os gurus que faziam sucesso naqueles anos loucos, como o Maharishi que enganou os Beatles. Barba longa, carequinha, uma bata sujinha como única vestimenta, Mr. Natural não é particularmente esperto ou sábio, não é especialmente intuitivo ou perspicaz, é ligeiramente tarado, escatológico e profundamente antiético. Ele distribui conselhos a um bando de seguidores à beira do retardamento mental, e os conselhos são do tipo: "Quando acordar de manhã, você deve lavar os pratos da noite. Então cante uma melodia qualquer, de sua própria escolha. Então, chame por alguém - que não seja eu. Então vá até a mercearia e compre alguns aspargos". É sempre um bom pretexto um relançamento das obras de Crumb para discutir sua imensa influência. Ele está presente no trabalho dos brasileiros Angeli e Spacca, assim como no do francês Jano. Está em toda parte.Robert Crumb nasceu na Filadélfia em agosto de 1943, filho de um marine e uma dona de casa católica fervorosa, e era o terceiro de cinco irmãos. Sua vida foi retratada no premiado documentário Crumb, de Terry Zwigoff. "Eu me dei conta que era um nerd e que não conseguiria nunca ter algo com garotas", ele conta, sobre sua adolescência. "Me senti tão dolorosamente isolado que eu planejei me tornar um grande cartunista para me vingar do mundo". Vingou-se, de certa forma. Nos anos 50, ele descobriu a revista Mad e o trabalho de Harvey Kurtzman. Pirou. "Eu vivi, respirei e comi as páginas daquelas revistas", ele revelou em 1989 nas páginas de um cartum seu, Ode to Harvey Kurtzman. "Fiquei verdadeiramente apaixonado". Então, ele criou o personagem Fritz the Cat e enviou para Kurtzman pelo correio e acabou indo trabalhar como seu assistente na Help!. Depois, veio o LSD. "A primeira viagem foi uma experiência mística. Foi uma espécie de Estrada para Damasco para mim. Fiquei completamente nocauteado e mudei o jeito de desenhar. Parei de desenhar a realidade".Mr. Natural, esse personagem clássico que está nas livrarias brasileiras em versão completa, é filho dessa fase do LSD. É um reflexo de uma viagem psicodélica que deixou marcas como uma chuva de purpurina.

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