CCSP/Divulgação
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O médico que conseguiu reunir Noel Rosa e Chico Buarque

Escrito por um médico-dramaturgo, musical mineiro chega hoje a São Paulo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2010 | 00h00

Há alguns anos em cartaz em Belo Horizonte, o musical Chico Rosa desembarca hoje em São Paulo. Chega, aliás, em momento propício: justamente quando se comemora o centenário do sambista da Vila Isabel. Em suas três apresentações no CCSP, o público poderá presenciar um improvável encontro entre Noel e Chico Buarque.

Bastante improvável, se consideramos que Noel já estava morto havia mais de 30 anos, quando o autor de A Banda começou a compor. No espetáculo, porém, eles não só aparecem juntos, como são amigos de botequim. Discorrem sobre a vida, falam de mulheres, do samba, do carnaval. E para regar a conversa, como não poderia deixar de ser, os atores Luiz Rocha e Daniel Maia recorrem à cerveja e a mais de 40 canções. Entre elas, as onipresentes Palpite Infeliz (Noel Rosa) e Homenagem ao Malandro (Chico Buarque).

Levada ao palco pela primeira vez em 2003, Chico Rosa foi escrita muita antes: em 1987. Mas para entender por que o texto levou tanto tempo para sair do papel é preciso vasculhar um pouco a trajetória de seu autor.

Vida dupla. Jair Raso já escreveu mais de 20 peças. É dramaturgo do grupo mineiro Cara de Palco. E, na trupe, também faz as vezes de diretor e iluminador. Uma rotina trivial para um homem de teatro. Mas um pouco mais complicada de equacionar se ele também é médico. Um neurocirurgião dividido entre o consultório e o hospital, onde opera regularmente. "Durante muito tempo foi um conflito: como conciliar as duas profissões", diz ele, que encontrou exemplo não apenas em Chekhov - o caso mais notável de um médico dramaturgo -, mas também em outros colegas. "Descobri que no Brasil inteiro há médicos dedicados ao teatro."

Foi só quando resolveu se profissionalizar e deixar o teatro amador para trás que a carreira como dramaturgo deslanchou, conta o dr. Jair durante um domingo à tarde - um dos poucos horários que tem disponíveis para entrevistas. "É possível conciliar. Só preciso tirar licença do trabalho uns 15 dias antes da estreia", diz ele, já às voltas com a direção de mais um musical.

Mas musicais não são a regra na carreira desse médico teatrólogo. Aparecem com mais frequência nessa trajetória os dramas - caso de A Corda e o Livro, obra de 2006 em que um mendigo tenta demover um jovem do suicídio recorrendo a argumentos da ética de Spinoza. Descobrimos nesse ponto mais uma faceta de Raso, que também se formou em filosofia. "Um artista é sempre um formador de opinião. Sentia uma lacuna. Por isso, fui buscar a filosofia." Mas, na hora em que se senta para escrever, ele prefere acreditar que não mudou muita coisa: prefere deixar as teorias de lado e continua a usar apenas a intuição.

CHICO ROSA

Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3397-4002, metrô Vergueiro.

R$ 20. 4ª, às 21 h. Até 15/12.

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