O mascer de uma cidade

A construção de Brasília, registrada pelo fotógrafo Marcel Gautherot, é tema de análise de Kenneth Frampton

Lúcia Guimarães / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

O arquiteto e professor inglês Kenneth Frampton esperou 45 anos para voltar a Brasília. Entre a primeira viagem, em 1965, e a segunda, em janeiro passado, ele se tornou um dos mais respeitados historiadores da arquitetura moderna. Seu livro História Crítica da Arquitetura Moderna (Martins Fontes) é leitura obrigatória para estudantes do ofício. Frampton acaba de escrever um ensaio de apresentação do livro Marcel Gautherot - Brasília, um trabalho que aceitou sob a condição de voltar ao País antes de escrever.

O livro, com 160 fotos feitas por Gautherot entre 1956 e meados dos anos 60, será oficialmente lançado no dia 29, no Instituto Moreira Salles do Rio, onde também vai ser aberta a exposição As Construções de Brasília. O livro será lançado em Londres em setembro, pela Thames&Hudson.

Há 10 anos conheci o acadêmico britânico que, desde 1972, é professor da Escola de Arquitetura da Universidade Columbia. Estava procurando um talking head para justificar minha decisão de escolher o arquiteto Richard Meier como tema de um pequeno documentário da finada série Carlton Arts - e não Frank Gehry, a celebridade daquele momento. Encontrei meu advogado. Frampton discorre sobre arquitetura como um solista virtuoso - erudição e doses contidas de lirismo vão compondo sua versão da narrativa modernista. Em 2002, Frampton aceitou, surpreso, ser o protagonista de um especial de meia hora (IBM E-Nova, canal GNT), e expressou dúvidas sobre as conquistas urbanas de Brasília.

Voltou da capital mais entusiasmado. Mas não mudou uma opinião: considera a melhor obra de Oscar Niemeyer anterior a Brasília. E considera Paulo Mendes da Rocha um dos maiores arquitetos vivos.

Porque o senhor achou necessário voltar a Brasília antes de escrever o ensaio e como a cidade mudou aos seus olhos?

Tenho esta impressão de que, quando fui pela primeira vez, em 1965, era difícil acessar o eixo central. Havia muita segurança, a memória que ficou foi de uma imagem meio a distância. Não pude perceber direito a escala da cidade, e enormidade do que havia lá. Por exemplo, a relação com a água e o ambiente. Da segunda vez, em janeiro, a impressão foi muito mais forte, a presença da cidade na paisagem é mais poderosa do que eu imaginava.

Há 8 anos, numa entrevista, o senhor me disse que Brasília representava um certo heroísmo, mas também sofria da "alta abstração do modernismo". Ainda pensa assim?

Sim, claro, existe a abstração mas veja que, quando fui em 1965, as árvores em torno das quadras ainda não haviam crescido. Então, só desta vez eu pude entender a qualidade das quadras cercadas de árvores. O anel verde unifica as quadras, cria uma textura urbana impressionante e habitável.

O senhor disse também que a laje de concreto era um recurso reducionista da arquitetura moderna.

Sim, é o que penso. Mas, em Brasília a altura é limitada, de modo que, as lajes, a uma altura de, no máximo, 8 andares, criam uma textura horizontal e estão entre as mais humanas que já encontrei.

O seu ensaio é precedido por uma citação de Oscar Niemeyer sobre o fato de que os operários construindo Brasília não iriam morar nas áreas residenciais. Niemeyer conclui que justiça social não se resolve na prancheta. Por que escolheu esta citação?

Porque ainda é verdadeira, a despeito de muito do que aconteceu na América Latina e no Brasil. Considero a administração do Lula uma das mais progressistas no continente. Mas ainda há esta enorme desigualdade social. Sei que os trabalhadores foram morar fora, não tive tempo de visitar as cidades satélites. A escala dessas cidades me surpreendeu. Vi que o sistema de metrô vai acompanhando este crescimento. Mas não entendi por que o transporte público não vai pelo eixo e sim pelas margens. Não conheço bem a cronologia da transformação mas a assimetria do crescimento, para o Sul, foi causada, a meu ver, pela falta de um sistema de transporte público, trilhos que cortassem o eixo central.

O senhor tem dito que admirava o trabalho de Oscar Niemeyer pré-Brasília. Depois da viagem deste ano, mantém a opinião?

Eu acho que o trabalho de Niemeyer foi se tornando muito formalista. A tendência, na verdade, já aparecia lá no eixo da cidade. Quando Brasília foi construída, o melhor da obra de Niemeyer já havia sido completado. Sei que estou fazendo um comentário extremo. Eu observo, no ensaio, que as formas dos edifícios do Poder Legislativo são poderosas, como são também as lajes que conectam os edifícios. Mas, por exemplo, aquele túnel entre os prédios não tem a mesma qualidade, nem o foyer. Não se vê ali o nível da Pampulha. É uma decepção, com arte ruim lá dentro, aquilo devia ser refeito. Não há uma representação forte do significado do Estado. Já o Itamaraty representa muito bem o Estado. Seu interior é um exemplo da poética do Niemeyer.

O senhor vê uma evolução na percepção de Brasília entre críticos de arquitetura fora do Brasil?

Eu acho que Brasília precisa ser "desenvolvida" para o exterior, a cidade sofre de uma certa falta de publicidade. É preciso analisar melhor o que lá foi construído. A cidade é vista ainda como uma experiência do passado e uma experiência que falhou. Acho que é um preconceito semelhante ao que se tem com Chandigarh, na Índia. Brasília ainda é um símbolo do futuro, do país que quer se modernizar. Sabe uma coisa que me perturbou? Ver todos aqueles prédios de bancos construídos dos dois lados da Esplanada dos Ministérios. São horríveis, prédios típicos de bancos. Os bancos são clientes terríveis de arquitetura. Veja como destruíram Genebra. Banqueiro não tem gosto. Eu acho que é preciso resolver o problema de transporte de trem de alta velocidade. Não só dentro de Brasília, como ligar a capital ao Rio e São Paulo por linhas de trem rápidos. O problema é a praga da indústria do automóvel. Los Angeles, por exemplo, na década de 50, tinha um sistema extenso de trens, foi tudo destruído para a ocupação das autoestradas. As pessoas dizem que vivemos numa democracia aqui mas quem manda são as corporações.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.