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Lúcia Guimarães
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O marqueteiro

Em janeiro de 1991, a revista Life publicou um longo exame de consciência escrito por um americano de quem provavelmente o leitor não ouviu falar. O então presidente do Partido Republicano, Lee Atwater, morreria dois meses depois, aos 40 anos, de um agressivo tumor no cérebro. O tumor fora descoberto no ano anterior, quando ele desmaiou enquanto ridicularizava um ex-candidato presidencial, num jantar para um senador republicano.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2014 | 02h06

Atwater endereçou suas desculpas especialmente ao dito ex-candidato democrata, o ex-governador de Massachusetts Michael Dukakis, confessando sua "crueldade nua" como marqueteiro da campanha adversária bem-sucedida de seu cliente George Bush, o pai. Naquela campanha, Atwater havia prometido fazer do criminoso negro Willie Horton um "companheiro de chapa" de Dukakis. Willie Horton cumpria pena de prisão perpétua por assassinato em 1986, quando teve licença para passar o fim de semana em casa, sob um programa especial do Estado de Massachusetts. Não voltou para a prisão e, no ano seguinte, foi capturado em Maryland, depois de assaltar e estuprar uma mulher. Horton foi transformado em protagonista da campanha negativa contra Dukakis, especialmente numa peça de propaganda eleitoral que ocupa o panteão da infâmia do racismo na política americana. O comercial foi produzido por Roger Ailes, o homem que hoje comanda a rede Fox News de Rupert Murdoch, sob a orientação de Lee Atwater. Willie Horton, no código mal disfarçado da propaganda, representava o negro.

Há quem considere Atwater a maior influência na política americana do último meio século. Ele ajudou a eleger Ronald Reagan, Bush pai, e foi mentor do filho, George W. Bush. Sua cria mais famosa é Karl Rove, que marquetou as duas eleições de George W. e continua a ser o cardeal da estratégia republicana de terra arrasada, de dividir para conquistar.

Em seu longo lamento no leito da morte, Atwater disse que precisara ficar doente para compreender o que faltava na sociedade e nele mesmo: "um pouco de coração, muita fraternidade". Castigou a década de 80 pela obsessão com a aquisição de poder e dinheiro. Expressou esperança de que os líderes dos anos 1990 falassem ao "vácuo no coração da sociedade americana, este tumor da alma." Um amigo e observador político chegou a afirmar que Bill Clinton não teria vencido a eleição de 1992 contra Bush pai se Atwater estivesse vivo.

Em 2008, estreou nos Estados Unidos o elogiado documentário Boogie Man, The Parable of Lee Atwater (Bicho Papão, a Parábola de Lee Atwater). O filme acompanha a carreira que começara sob a proteção de um lendário senador racista da Carolina do Sul. Aos 22 anos, Atwater usou como arma publicitária o tratamento de eletrochoques para depressão na juventude de um adversário. Aos 27, já tinha doutorado em baixaria: convenceu um terceiro político sem chance de vitória a entrar numa campanha para deputado e monopolizar o sentimento antissemita para derrotar o candidato judeu Max Heller. O marqueteiro aperfeiçoou a tática "empurra e puxa" de fazer pesquisa eleitoral com perguntas do tipo: "Você acredita que Michael Dukakis é contra a saudação à bandeira?".

Enquanto apelava para os mais baixos instintos racistas durante o dia, não era impossível encontrar Atwater à noite num clube, tocando guitarra com B.B.King. O propagandista da segregação mergulhava na cultura negra como guitarrista de blues.

Um autor americano entrevistado no filme diz que Atwater poderia facilmente ter sido um assessor do Partido Democrata porque não acreditava em nada do que vendia ao eleitor. Ele não tinha lealdade a partido e, sim, à vitória a qualquer preço o que é, convenhamos, um atributo importante do marqueteiro que vende seus talentos como um caixeiro viajante, de estado em estado, de país em país. Seu arsenal incluía vazar para a imprensa histórias falsas sobre colegas republicanos incomodados com suas táticas. Ele era um querido de repórteres que seduzia com fofocas, sempre oferecendo saborosas citações entre aspas.

Em 1981, Atwater concedeu uma entrevista em off e nela detalhava sua estratégia racista para o Sul dos Estados Unidos. Recordava que, na década de 50, era só repetir, "nigger, nigger, nigger". Mas os novos tempos exigiam abstrações, linguagem em código. Num episódio de justiça poética, a gravação dos 41 minutos da entrevista foi encontrada por James Carter IV, neto do Jimmy Carter, o último presidente americano a se eleger sem recorrer a uma reinvenção de laboratório, embora seu estrategista na campanha de 1976, Hamilton Jordan, fosse uma das mais astutas mentes políticas daquele período.

Um colega republicano de Atwater recorda que, no estágio final de sua doença, ele dizia encontrar fé numa edição de The Living Bible (A Bíblia Viva). Quando arrumava os pertences de Atwater, depois de sua morte, uma amiga encontrou a tal bíblia, ainda fechada na embalagem original de celofane. O marqueteiro marquetou até o fim.

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