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O marco zero do romance histórico

Considerado o primeiro exemplo de obra que funde ficção e história real na literatura italiana, 'Os Noivos', de Alessandro Manzoni, ganha uma nova tradução, desta vez em sua integridade

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2012 | 22h00

A força do credo do escritor italiano Alessandro Manzoni na redenção humana e na potência da língua italiana está expressa na obra-prima Os Noivos (I Promessi Sposi), pioneiro romance histórico da Itália do Risorgimento, que agora chega ao mercado em nova tradução, de Francisco Degani, pela Nova Alexandria. Publicado originalmente em 1827 e revisado pelo autor em 1840, Os Noivos - leitura obrigatória nas escolas italianas - é uma obra de proporções épicas, frequentemente comparada a outros monumentos do romance histórico, de Walter Scott a Leon Tolstoi. A proximidade com o russo é ainda maior, por ter Manzoni (1785-1873), em Os Noivos, dado ênfase não ao heroico ou pitoresco, mas tratado da vida de pessoas humildes consumidas num turbilhão político de guerras intermináveis, disputas religiosas, peste e fome.

As traduções anteriores do romance, com a possível exceção da versão de Luís Leal Ferreira para a editora Vozes, em 1951, ou eram incompletas ou feitas a partir de outras línguas, e não do original italiano. Francisco Degani levou mais de um ano para realizar o trabalho, sendo sua maior dificuldade, segundo ele, “achar o tom exato da tradução, considerando que Manzoni usa dois diferentes registros: um mais erudito, para a parte descritiva, e outro mais popular, nos diálogos”. Essa diferença de tom não passou despercebida pelo filósofo e cientista político italiano Antonio Gramsci, que identificou nesse retrato sobre as diferenças de classe certa manifestação de superioridade, fruto do que classificou de “caráter aristocrático do catolicismo manzoniano”. Outro marxista, o cineasta Pier Paolo Pasolini, faria posteriormente uma análise ideológica do protagonista masculino, o camponês Renzo, como um “homenzinho prático que se torna moralista para defender seus bens”, copiando o modelo dos poderosos que o perseguiram.

Professora de pós-graduação da USP e autora do prefácio de Os Noivos, Aurora Fornoni Bernardini concorda com Pasolini, mas não com Gramsci, que acusa Manzoni de tratar os pobres de seu romance como “animais sem vida interior”, distanciando o escritor italiano de Tolstoi, ao afirmar que seu catolicismo “aristocrático” nada tem a ver com o espírito evangélico do cristianismo primitivo revivido pelo escritor russo. “A crítica de Gramsci não procede, pois Manzoni diferencia o alto do baixo clero”, diz a professora. De fato, há no romance dois tipos de religiosos, os que servem ao poder, como o hipócrita dom Abbondio, e os que tomam a defesa dos pobres, como frei Cristoforo, quase um santo na visão do convertido Manzoni.

Abbondio recusa-se a realizar o casamento entre Renzo e Lucia, justificando um impedimento legal (em latim) que o noivo, obviamente, não entende - o religioso foi ameaçado pelos sicários de Don Rodrigo, o “dono” da aldeia, que desejava a noiva para si. O padre covarde, porém, “não nasceu com o coração de leão”, escreve Manzoni. Foi a sociedade que o transformou. O mal, segundo sua concepção filosófica, é um agente externo à vontade dos homens, que se tornam reféns dessa força perversa. No entanto, a Providência guiará o mais devasso entre os depravados para o caminho do bem, conforme o credo de Manzoni, que joga Renzo no furacão do mundo, construindo uma parábola cristã com sua história de amor interrompido.

Ambientado entre 1628 e 1630, Os Noivos cobre um período histórico particularmente turbulento na Itália, então sob domínio espanhol. Sábio, Manzoni preferiu voltar ao passado para falar do presente. Em 1827, quando foi publicada a primeira versão do romance, seu país lutava para ser independente e unificado. Na onda do Risorgimento (1815-1870) era preciso, inclusive, uma língua capaz de unir os italianos, submetidos ao arbítrio de monarcas estrangeiros - e Manzoni, seguindo os nacionalistas, fez da fala toscana, do dialeto florentino, a nova língua italiana representada pelo léxico de Os Noivos. Ele pode ser lido tanto como um romance sobre diferenças sociais como uma alegoria contra o antigo regime, mantido graças ao apoio das forças austríacas, uma alusão à invasão espanhola no passado.

Manzoni, que morou em Paris quando seus pais se separaram e a mãe encontrou um novo parceiro, não escapou à influência dos pensadores franceses guiados pela filosofia de Voltaire. Ao casar-se com a filha de um banqueiro suíço calvinista, Henriette Blondel, que se converteu ao catolicismo, Manzoni deixou para trás esse passado cético, voltairiano, e transformou-se igualmente num católico austero, escrevendo uma série de poemas sacros e um tratado sobre a moral católica. Além deles, deixou duas tragédias, Il Conte di Carmagnola (1819) - que abjura o estilo clássico de seu poema Urania (1806/7) - e Adelchi (1822), sobre o filho do último rei lombardo, Desiderio, que cai prisioneiro de Carlos Magno - outra alegoria da ocupação estrangeira.

“Em Os Noivos, Manzoni introduziu elementos históricos na literatura italiana, então muito afetada, seguindo o modelo de Walter Scott, o da aventura amorosa que termina em apoteose”, observa a professora Aurora Bernardini. O tradutor Francisco Degani atribui a criação de Os Noivos à marcante presença da obra-prima do criador do romance inglês, Ivanhoé (1820). Outro possível ponto de partida foi a leitura de um edital (de 1627) sobre as penalidades reservadas aos padres que se recusassem a celebrar casamentos. Os Noivos, aliás, começa, com a transcri(a)ção de um esfarrapado manuscrito seiscentista (inventado por Manzoni) em que o autor critica o estilo “vulgar e incorreto” do texto - com “expressões lombardas em abundância”, gramática imprópria e “períodos desarticulados”. Trata-se de uma advertência do autor ao leitor, para deixar claro que ele pretende criar com o romance uma nova linguagem para uma nova era, avessa a esse “gênero de extravagâncias”.

As inovações não são apenas formais. Antes de reencontrar a noiva Lucia, Renzo é injustamente acusado de um crime, tem de cruzar campos de batalha, enfrenta a peste negra de Milão (entre 1629 e1631) e, num gesto de caridade cristã, é repreendido por frei Cristoforo pelo desejo de vingança contra o causador de sua tragédia. Renzo é desafiado pelo religioso a perdoá-lo. Os grandes heróis do romance são, aliás, os religiosos, sejam eles Cristoforo, cardeais corruptos que se arrependem ou ainda criminosos convertidos, com certeza uma maneira que Manzoni arranjou de reparar seu anticlericalismo juvenil em Paris.

Como bônus, a nova edição de Os Noivos traz um impressionante texto do escritor sobre tortura, violência e injustiça, História da Coluna Infame, publicado na edição revista pelo autor, em 1840. Nele, Manzoni conta um episódio de 1630, em Milão, sobre dois inocentes acusados de espalhar a peste na cidade, um agente sanitário e um barbeiro que tem a casa destruída e é condenado a suplícios. Manzoni faz não só um relato histórico como uma análise jurídica que denuncia os abusos dos poderosos. Trata-se, acima de tudo, de um manifesto genuinamente cristão a favor da verdade e contra a carnificina resultante da invenção maligna de uma pessoa do povo, registrada de modo torpe por um historiador. Manzoni faz o papel de revisor nessa história. Quem ganha com isso é o leitor, contemplado com um relato honesto.

OS NOIVOS

Autor: Alessandro Manzoni

Tradução: Francisco Degani

Editora: Nova Alexandria

(648 págs., R$ 98)

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