O mar que nos une a Claude Debussy

Gilberto

O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2012 | 03h07

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C huva no mar é desejo. Um belo e já popular verso de meu amigo Flávio Amoreira, um escritor que mora por aqui e gosta de me provocar. Perguntou-me outro dia se eu não ia escrever sobre os 150 anos do nascimento de Debussy. Afinal, ele é um dos nossos, diria Joseph Conrad.

Ao menos uma coisa nos identifica, de fato, com o grande Claude de France: nosso envolvimento com o mar, o sentimento atlântico do mundo, como gosta de dizer Flávio. Tão santista! Mas era o mar visto da praia que Debussy admirava. Parece que ele nunca fez uma viagem marítima. No entanto, compôs a obra musical que melhor evoca o mar em seu ondular desenvolvimento formal, profundidades orquestrais nas cordas, ventos alíseos e outros nos sopros. O título não poderia deixar de ser : LA MER.

Na sua extraordinária Suite Bergamasque, além do famoso Clair de Lune, há um minueto que, estranhamente (porque, afinal, trata-se de uma dança de salão), tem em certos momentos todo aquele elevar, aquele crescendo da onda em formação (que a gente sente no surf) e depois sua quebra e deslizamento. Maravilhoso, delicioso, é o sentimento físico que sua música produz.

Claude-Achille Debussy nasceu em St.Germain-en-Laye, na França, em 22 de agosto de 1862, e morreu em Paris, em 25 de março de 1918, no melancólico final da primeira guerra mundial. Inicialmente aluno do Conservatório Musical de Paris, ganhou o cobiçado Prix de Rome, o que lhe deu a oportunidade de viver por uns bons tempos na capital italiana. Esta estadia, bem como outra na Rússia, marcaram bastante o caráter de sua música. Mussorgski impressionou-o bastante, assim como a luminosa atmosfera mediterrânea italiana. O que, no entanto, parece mais ter impressionado sua sensibilidade, já naturalmente muito especial, foi a audição de música javanesa em Paris (1889), com seus extraordinários gamelãs. O exotismo dessa música foi por ele traduzido em um sistema harmônico absolutamente novo que ele inventou para a música erudita de seu tempo, partindo de Duparc, Chausson, Fauré, em busca de uma música só de harmonias, sem melodias propriamente ditas. Acordes de sétimas, nonas, décima-primeiras, harmonias dissonantes que flutuam relacionadas livremente, obedecendo a outra lógica combinatória, como a que rege as nuvens, os peixinhos dourados, os reflexos na água, os jardins sob a chuva. Títulos de algumas de suas principais obras.

Com essa nova busca Debussy se livra da influência que teve de Wagner, a quem ele admirou em sua mocidade e depois passou a evitar, até mesmo criticar. No entanto, ainda é forte a influência de Wagner em todo o final de sua famosa obra L!Après Midi d'un Faune. Talvez alguma coisa ainda em sua única ópera Pelléas et Melisande, texto de Maeterlinck.

Como comentarista musical, criou Mr. Crochê, Antidilettante, pseudônimo sob o qual demolia o conservadorismo musical de sua época, coisa que Pierre Boulez gosta muito de imitar em nossos dias. Não era, como se pensa, tão ligado a escritores, a não ser a seu amigo Pierre Louys, cujos escritos deram-lhe a chance de compor as extraordinárias Chansons de Bilitis.

Espectralistas de hoje, tomem nota. Debussy dizia que é preciso buscar a disciplina na liberdade e não em fórmulas de uma filosofia já caduca e boa para os débeis. Afirmava que música não se faz com teorias. É preciso olhar o mar, sentir o vento no rosto. Contudo, a música de Debussy está entre os pilares de sustentação da evolução de uma linguagem musical que, partindo da Grécia (onde Pitágoras inventou a música), vai se dividir na idade moderna entre a linha Beethoven-Brahms-Schoenberg e a linha Mozart-Chopin-Debussy. A admirável música para piano de Debussy era uma projeção da música de Chopin, que ele tanto admirava, com suas harmonias já meio piano-bar de hoje. Debussy levou esse cosmopolitismo moderno chopiniano às últimas consequências com sua harmonia dissonante em cima da escala por tons inteiros.

Não teríamos, tal como é, a música de um Oscar Peterson, Bill Evans, nosso Tom Jobim, na verdade toda a moderna música popular mundial sem a abertura harmônica definitiva que Debussy deu à linguagem musical do século 20 como um todo.

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