O mar como palco de um drama existencial

O poeta antilhano Saint-John Perse (1887-1975) fez um livro, Amers, em que escolheu o mar como espelho do destino humano e ilustração da "busca errante do espírito moderno". Em certo sentido, esse drama é retomado no livro A Chave do Mar, que o poeta Fernando Moreira Salles lança hoje. Nele, o mar surge como fronteira e palco de imprecação do espírito à procura de uma resposta para o vazio existencial. Essa caminhada para o mar atrás de uma conexão com forças eternas começou em seu livro anterior, Habite-se (2005), reforçando a carga metafísica de Ser Longe (2003), primeira obra poética do editor, que começou como dramaturgo, assinando as peças Eu Me Lembro (1995) e Entrevista (1998).

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

Como Saint-John Perse, Salles gosta de trabalhar com a polissemia da palavra. A chave do título encontra correspondência na notação que inicia a pauta musical, a clave. Sentido e som andam juntos nos poemas dramáticos de A Chave do Mar, de caráter autobiográfico, buscas proustianas de um tempo em que a existência era mais leve e as ondas menos perturbadoras. No poema Do Mar, por exemplo, as ondas usam a "diccção da espuma" numa língua universal próxima do esperanto, entendida por surfistas em qualquer parte do mundo - o que inclui o jovem Salles, frequentador do posto três de Copacabana nos anos 1960.

Perse imaginou um teatro simbólico à beira-mar, onde o drama humano tem lugar. Salles combina esse espaço com o tempo mítico - como no poema em memória do bibliófilo José Mindlin. Nele, a palavra oracular se manifesta no virar de uma página. A iluminação mística, paradoxalmente, chega à noite, na "hora descarnada" em que os olhos viram instrumentos inúteis. O poeta invoca a luz novamente no poema Natal, publicado pelo Estado num especial de fim de ano, em que fala de um menino, filho de carpinteiro, remetendo o leitor à arena religiosa do poeta Jorge de Lima.

"Essa experiência de um poema partilhável, distante da poesia autocentrada da minha geração, me levou a uma concisão não redutora, mas aberta." De fato, os poemas já começam nos títulos. São, segundo o poeta, seus primeiros versos. As epígrafes - de Cortázar a Updike - representam igualmente uma pequena sinopse dos poemas. Neles, o mar surge como agente físico imanente de um "reencontro com as raízes" desse carioca hoje mais paulistano.

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