O malvado e os bananas

House of Cards peca ao pintar cenário da política americana de forma ingênua

JULIA DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2013 | 02h09

Políticos, garotas de programa e lobistas em relações pouco republicanas não são privilégio do Congresso brasileiro. Pelo menos, é o que vemos em House of Cards, série da Netflix, no ar desde o dia 1.º, na qual acompanhamos cenas ambientadas nos corredores do Capitólio, em Washington, que não ficam nada atrás dos momentos menos enobrecedores do salão verde da Câmara dos Deputados, em Brasília.

O seriado, disponível para assinantes da rede de filmes online, gira em torno do malvado e inescrupuloso Francis Underwood (Kevin Spacey), democrata da Carolina do Sul, e sua mulher Claire (Robin Wright), dirigente de uma ONG e espécie de Lady Macbeth, que influencia o marido rumo ao poder. Juntos, articulam, trapaceiam e até aturam traições mútuas - desde que para atingir seus objetivos.

A trama começa na formação do gabinete do novo presidente da República, um democrata inexpressivo. Underwood é o "majority whip", espécie de sargento do partido, responsável por acompanhar a votação dos colegas e verificar a lealdade partidária. No Brasil, onde fidelidade partidária é algo raro, a figura não existe - quem supostamente acompanha votações é o próprio líder da legenda.

Underwood queria ser indicado secretário de Estado do novo governo, mas perde a nomeação para outro parlamentar. A partir daí, resolve não só se vingar como colocar em prática um plano de poder ainda mais ambicioso, com a ajuda de Claire e do seu chefe de gabinete - do tipo "pau pra toda obra", que retrata bem algumas figuras facilmente encontráveis nos gabinetes de Brasília.

Na sua jornada de vingança e poder, no melhor estilo "vilão de novela", Underwood se aproxima de Zoe Barnes (Kate Mara), uma jovem repórter do jornal Washington Herald - referência indireta ao poderoso Washington Post. Se os políticos são inescrupulosos, os jornalistas não ficam atrás: a moça não hesita em levar a apuração até a própria cama, se for preciso. Underwood, por sua parte, usa Zoe para plantar pautas de seu interesse. O conluio o faz avançar em seu plano e lança a jovem ao estrelato.

Entre um blefe ali e uma ameaça acolá, o protagonista manipula todos, inclusive o presidente da República. Irreal, o personagem de Spacey é uma caricatura de um superpolítico - ou o sonho daqueles que seguem a carreira: todos são fracos e suscetíveis às suas chantagens, ninguém é tão esperto quanto ele. A única relação verdadeira que mantém é com o dono de um boteco, que faz as "melhores costelas de Washington".

Vez por outra, seus planos e maledicências, lapidados enquanto joga videogames violentos, são revelados diretamente para a câmera, como se falasse com o público. Ponto fraco da série, o recurso fragiliza o roteiro, escancarando as intenções do personagem: "Minha tática é atingir meus adversários, um por um, como um sniper escondido na floresta", diz ele. Ou: "Às vezes, a única maneira de ganhar o respeito do seu superior é desafiando-o", afirma, em outra pílula de sabedoria.

House of Cards foi a aposta da Netflix, que já conta com 27 milhões de assinantes nos Estados Unidos, para concorrer com as produções das TVs a cabo, como HBO (Boardwalk Empire) e AMC (Mad Men). É produzida pelo estúdio independente Media Rights Capital e tem Spacey como um dos produtores executivos. Os 13 capítulos foram liberados de uma só vez, para que o público possa assisti-los quando entender, sem ter que esperar a cada semana, como nas séries convencionais.

O programa é baseado na minissérie homônima da BBC, na qual Ian Richardson é um conservador do Parlamento inglês no começo dos anos 1990. O original, por sua vez, foi inspirado no livro do político conservador britânico Michael Dobbs. O roteiro é de Beau Willimon (Tudo pelo Poder) e a direção é de David Fincher (A Rede Social) e Joel Schumacher (Um Dia de Fúria e 8 Milímetros), entre outros.

Assistir aos conchavos de House of Cards traz um certo alívio ao público brasileiro: o submundo da política americana não difere tanto assim do nosso. A série, contudo, pinta o cenário de maneira ingênua: um vilão bem malvado operando um séquito de bananas. Diante dessa superficialidade, fica-se com a sensação de que, prestando atenção ao noticiário político nacional, talvez encontremos personagens mais complexos e com maior densidade dramatúrgica. Mesmo assim House of Cards foi considerada um sucesso para o Netflix. A segunda temporada já está em produção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.