O malandro, no idioma de Brecht

A diretora de teatro alemã Lilli-Hannah Hoepner tentou, em vão, achar um correspondente em sua língua para a brasileiríssima palavra "malandro". Consultou vários dicionários, pediu a colaboração de amigos que dominam os dois idiomas (como ela) e chegou a dezenas de possibilidades.

ROBERTA PENNAFORT, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2012 | 02h07

Mesmo que relativamente íntima da cultura verde e amarela - visitou o Rio dez vezes, esteve em escolas de samba e em terreiros de umbanda, embebeu-se na música, teatro e cinema nacionais -, acabou por não encontrar nenhum equivalente ao termo com todas as suas nuances.

Foi então que Lilli concluiu que melhor seria não traduzir o título da Ópera do Malandro, peça de Chico Buarque de 1978 que está há seis meses traduzindo e adaptando em parceria com a jornalista carioca radicada em Berlim Luciana Rangel, para estrear em Berlim em janeiro de 2013 - Ano da Alemanha no Brasil.

O elenco será meio brasileiro, meio alemão. Os arranjos estão a cargo de Guilherme Castro, outro brasileiro que mora em Berlim, e as músicas serão cantadas em português por cantores-atores brasileiros. O que não deverá dificultar a compreensão da plateia, ela acredita.

"O mais difícil de traduzir são as canções, obras únicas de poesia. E me interessa que o público alemão as ouça em português, essa língua tão musical e sensual", conta, por telefone, a diretora, que conseguiu a liberação de Chico um ano atrás.

Segundo Vinicius França, empresário do compositor, a Ópera é a mais requisitada para versões no exterior das cinco peças que ele escreveu, sozinho ou com parceiros, entre 1967 e 1983. Foi a penúltima, e a que concentrou mais músicas com sobrevida para além das montagens (Teresinha, Homenagem ao Malandro, Folhetim, O Meu Amor, Geni e o Zepelim, Pedaço de Mim).

Esta seria a primeira versão na língua de Brecht, escrita com base na Ópera dos Três Vinténs (1928), do dramaturgo alemão com Kurt Weill, que por sua vez, se remeteu à Ópera do Mendigo (1728), do inglês John Gay.

Na história de exploradores e explorados, anti-heróis, contraventores e prostitutas, entrarão referências atuais. "Estamos fazendo tudo com cuidado, é muita responsabilidade. Não vejo a peça como um show. Dizem no Brasil que tudo acaba em samba, mas é preciso ter essa dor, as questões morais e éticas."

A estreia será na Neuköllner Oper, teatro berlinense numa área boêmia como a Lapa, e não muito distante do Theater am Schiffbauerdamm, no centro da cidade, mais especificamente na praça que ganhou o nome de Bertolt Brecht. Foi neste teatro que ele estreou a ópera hoje clássica. "Chico levou Brecht para o Brasil transformando a peça em algo bem brasileiro, mas ainda assim Brecht é completamente presente ali."

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