O mal na novela

Passione tem vários níveis de personagens vilões, mas o maior peso das maldades está a cargo do casal Fred e Clara, embora eles próprios tenham suas diferenças básicas

RENATO JANINE RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Gilda de Mello e Souza, que foi minha primeira orientadora, dizia que o Brasil é muito bom nas novelas. Para ter público, a novela precisa dispor de personagens de todas as classes sociais, explicava ela, o que exige uma trama complexa. Acrescento: a mobilidade social é decisiva nas novelas e se dá sobretudo pelo amor entre ricos e pobres. Provavelmente as novelas exibam casos de ascensão social pelo amor - genuíno ou fingido - em proporção maior que a vida real... Mas a novela não é um retrato do Brasil, ou melhor, é sim, mas como aqueles retratos antigos do avô e da avó, fotografados em branco e preto, mas, depois, cuidadosamente retocados e coloridos. O fundo é real. A tela: ideais, sonhos, fantasias.

Novelas vivem de conflitos. Eles são movidos, quase todos, pela oposição do bem e do mal. Esse confronto dramático nos empolga. Talvez por isso a democracia não nos empolgue tanto, no seu dia a dia: porque, nela, os conflitos são a norma e não a exceção. Ela é o único regime em que divergir, sem ter de se explicar e justificar, é legítimo. Quando uma democracia funciona bem, não escolhemos em razão da honestidade e competência - que deveriam existir nos dois ou mais lados em concorrência - mas com base nos valores que preferimos, por exemplo, liberalismo ou socialismo. Mas nossa tendência, mesmo nas democracias, é converter as eleições em lutas do bem contra o mal. É demonizar o adversário, transformá-lo em inimigo. Creio que isso explica por que a democracia, uma vez instalada, empolga menos que a novela. De noite, dá mais prazer reeditar o ágon milenar do bem e do mal, do que aceitar que os conflitos fazem parte essencial da vida e portanto as duas partes podem ter alguma razão. Aliás, há muitos séculos que é encenada essa situação de conflito irremediável entre dois lados que têm razão: desde os gregos antigos, tem o nome de tragédia. A democracia é uma tragédia sem final infeliz - ou, talvez, sem final.

As novelas recompensam, em geral, os bons. Mas eles são bons só na vida privada. É difícil alguém se empenhar em melhorar a cidade, a sociedade. Roque Santeiro (1985-86), a novela que mostrou como a ditadura recém-morta continuava viva, e Fera Ferida (1993-4), que fez a catarse da queda de Collor, ainda são mais exceção do que regra. As personagens boas são afetuosas, solidárias, mas não têm vida pública. Fazer o quê, se no Brasil a vida pública é tão rara, tão cara?

As personagens más são menos numerosas, mas indispensáveis. Condimentam a trama. Seu destino é mais variado, e assim deve ser, se quisermos uma boa novela. Não podem ser todas punidas, nem sair todas impunes.

Passione tem vários níveis de personagens que fazem o mal. Como é praxe nas novelas das 21 horas, esta também assume causas nobres (já tivemos no passado a luta contra o preconceito racial e de gênero, em favor dos portadores da síndrome de Down, e muitas outras). Aqui, parecem ser duas as grandes causas morais. Primeira, a luta contra as drogas. Danilo (Cauã Reymond) é egocêntrico e amoral, fez mal à namorada, ao irmão e ao tio, mas deverá ser perdoado porque é uma vítima das drogas. Segunda causa: a exploração da sexualidade de adolescentes e crianças. Valentina (Daisy Lúcidi) aqui é a grande vilã, tanto porque no passado explorou Clara quanto porque agora tenta prostituir a outra neta, Kelly (Carol Macedo). Valentina não tem perdão, embora seja personagem secundária e quase bufa.

Outros também fazem o mal, sem serem, necessariamente, maus. Stella (Maitê Proença) busca separar a filha do namorado, mas também pratica atos generosos - e, afinal, também é vítima, no caso, de um marido que nega amor a ela e aos filhos. Melina (Mayana Moura) fará de tudo para impedir a reunião de um casal que se ama. Mas os grandes vilões, pelo menos por ora, são outros. Poderíamos até incluir Saulo (Werner Schünemann), mas ele se mostra tão inepto que não dá para levá-lo muito a sério.

O par do mal é, desde o começo, Fred e Clara. Mas há uma grande diferença. Fred é básico. Embora acuse os Gouveia de terem levado seu pai à morte, seu suposto projeto de justiça-mais-vingança sumiu da tela. Já Clara mostra uns traços bons, ainda que raros - a vontade de salvar a irmã da avó canalha, a desistência de matar Totó quando tudo estava pronto para isso. A própria atriz, Mariana Ximenes, contou ao Estado que não sabe quando sua personagem finge e quando é verdadeira em seus atos bons. O enredo dela é mais complexo que o de Fred, que apenas deu dois grandes golpes, um em Totó para se tornar seu procurador e outro em Melina quando tentou casar com ela. Fred infringiu pouco a lei. Tentar casar-se por interesse é anti-ético, mas não constitui crime. Já Clara foi capaz de violar capítulos inteiros do código penal! Curiosamente, isso não a torna pior do que Fred: torna-a interessante.

Repulsa. Difícil, no fundo, salvar algum dos dois. Nosso povo está cada vez mais indignado com a impunidade dos políticos, dos empresários e dos criminosos mais repulsivos. Esse é um dos pontos que mais ameaça, não digo nossa democracia porque hoje nenhum projeto de golpe de Estado teria sustentação, mas algo até mais decisivo, que é nosso tecido social. Uma sociedade se forma de inúmeros laços de confiança. Não podemos confiar nos outros se a desonestidade continuar premiada. Mas quem decidirá o final será Silvio de Abreu, que não tem obrigação de fazer a ficção ser mais justa e digna de se viver que a vida real. O dever de melhorar nossa sociedade é nosso, não do dramaturgo.

RENATO JANINE RIBEIRO É PROF. TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA NA USPG

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