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O mal-estar eleitoral

Quando foi que o falar (mal) dos outros deixou de ser o assunto mais importante do Brasil?

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2018 | 02h00

Sendo seres rigorosamente da casa e “de família”, todos temos, além de um nome a zelar, uma enorme ambivalência pela “política”, sobretudo quando ela não pode mais esconder o meio-termo e exige voto e escolha. Criados para aceitar, fingir e não reclamar do que temos e somos (pois há gente pior que nós...), temos um desconforto amigável com os confrontos eleitorais. 

Com seu exagero ianque, o professor Moneygrand me assegura que o sistema político brasileiro foi desenhado para não escolher e que para nós, brasileiros, o inferno é ser obrigado a tomar partido. Neste sentido, diz ele, somos sem querer o país no futuro já que, na sua percepção, uma “ética da dúvida” será dominante neste planeta canibalizado pelo consumismo... 

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Não seria um paradoxo sermos apaixonados pela “política” – esse domínio no qual o público e o não previsto se manifestam abertamente quando somos criados para sermos obedientes e honestos em casa, mas treinados para esconder, mentir e ocultar na rua? 

Quando foi que o falar (mal) dos outros deixou de ser o assunto mais importante do Brasil? Americanos falam de coisas, nós de pessoas, aprendi numa América mais para Alexis de Tocqueville do que para Joseph McCarthy.

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De fato, em casa tudo nos é atribuído: somos pais, filhos, irmãos, sobrinhos, netos, cunhados... Nela, nada é escolhido e o comportamento segue a velha e inconsciente hierarquia inibidora do nosso lado, público, cidadão e individualista que surge com os amigos que escolhemos no mundo público quando (altamente culpados) estamos livres dos controles da nossa poderosa rede de carne e de sangue. 

Em casa, somos “educados” e sobretudo obedientes – quase reacionários, diz meu amigo Levy... Mas, na “rua”, assustamos (e escandalizamos) quando nossos “responsáveis” descobrem como um latejar de liberdade combinado a um grama de igualdade nos torna “moleques de rua” e “revolucionários”, desafiando não apenas “tudo isso que ai está” (o que é fácil de dizer e até hoje impossível de fazer), mas igualmente os sofridos corações maternos... 

Criados para não discordar, a polarização eleitoral causa mal-estar quando legitima diabolizar adversários políticos mesmo quando eles são da nossa família. A repressão do dissenso em casa revela uma negação absurda da realidade na rua. Ela legitima classificar genitores, professores e amigos como nazistas e como apoiadores do fim do mundo – caso “ele” ou o “outro” seja eleito. 

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É normal que o período eleitoral apaixone. Não é, porém, normal que se transforme numa batalha bíblica entre anjos e demônios. 

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O que estou sugerindo aqui não é novidade para quem leu meus livros. Neles, eu reitero que, para termos uma vida pública palatável, é fundamental dirimir a distância entre a casa e a rua. Só assim iremos entender as suas conjunções injuriosas, quando pedimos ao parente instalado no governo ou quando concebemos os presidenciáveis como as figuras paternas a quem queremos entregar o País quando, na verdade, o nosso papel mais básico como cidadãos não é o de continuar sendo “filhos” obedientes e seguidores, mas de governar o governo.

Algo complicado quando o domínio da casa é situado fora do mundo e quando se vive num planeta cada vez menor e mais dividido. Até onde vai a divisão vai também permear a nossa intensidade afetuosa em casa e a nossa relativa indiferença na rua é – a meu ver –, uma das questões centrais desse momento político. 

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Se não é cabível esquecer a linguagem violenta, também não é possível descartar a chocante denúncia de uma política de corrupção em nome do povo. Eis um dilema complexo numa sociedade onde se aprende, repito, a estar de acordo com os erros do pai e os exageros da mãe; e, no mundo político, adotou-se se o vergonhoso lema de que os fins justificam os meios. Mas posso lhes assegurar que, por baixo de todas as discórdias, jaz um Brasil cujas razões conhecemos sempre parcialmente. 

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Repito o que não estamos no fim do mundo. Estamos, sim, vivendo uma inesperada e imensa renovação. Dizem que é conservadora. Se Marx, vivo estivesse e brasileiro fosse, diria que o certo seria chamá-la de revolucionária.

 

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