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O mais distante possível

Talvez seja mais saudável ouvir as estrelas e - com o perdão do trocadilho, perder por desinteresse ao autoconhecimento - o senso do que ser um explorador de mundos impassíveis

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2021 | 03h00

Eis uma expressão banal e, ao mesmo tempo, extraordinária. Quando Juquinha ouviu de sua namorada, Maria das Dores, as palavras: “eu não gosto mais de você”, aquelas seis palavras do distanciamento soaram como uma sentença de morte e, no entanto, foram pronunciadas no mesmo tom que um dia afiançou um “jamais vou deixar de te amar” repleto de eternidade. 

Como se pode passar do mais próximo ao mais distante de modo tão trivial? Seria essa possibilidade da transição que explicaria o drama ou a tragédia dos extremos hoje proclamados como ideais aqui no Brasil? 

Talvez por isso, o Guimarães Rosa dos Grandes Sertões nos advertiu que “viver é muito perigoso”. E o roteirista americano David Gerrold foi ainda mais longe, quando diz: “A vida é dura e então você morre. Aí jogam terra na sua cara e você é comido pelos vermes. Seja grato que isso ocorra nesta ordem”. 

Será que a sabedoria, como diz Gerrold, não estaria em aceitar o próximo e o distante, pois o muito próximo é transitório e o mais distante se confunde com o infinito?

Mas mesmo assim eles se confundem numa relação que somente em situações muito especiais atinamos com suas realidades?

Não é o que acontece quando olhamos para as nossas mãos e, então, para as estrelas?

Não sei...

Como vou saber se sou apenas um mortal de 84 anos que, tal como o Juquinha, viu a intimidade do amor virar a distância cósmica do desamor e da indiferença?



No dia 28 de novembro de 1969, o astronauta Michael Collins (que saiu do palco neste último 28 de abril) plotou a Apolo 11. Ele girou solitário em torno da Lua, na qual caminharam encantados, com ausência de peso que nos ancora ao mundo e é a base do princípio de realidade, seus companheiros Neil Armstrong e Buzz Aldrin. 

Na vila harvardiana do Holden Green, eu testemunhei esse rito de passagem que invertia o mito. Agora não era o herói civilizador Apolo que vinha do céu para a Terra, eram seus filhos que subiam ao céu para descobrir que nada havia de misterioso na volúvel Lua dos poetas e enamorados, exceto a eterna e moribunda poeira que nos faz dormir e sonhar.

Eu estava com 33 anos, havia passado nos meus exames de doutoramento e, conforme mandava a inocência que é parte do meu ser, me identificava com os cosmonautas porque eu bem sabia o que significava distanciar-me do dominante provincianismo intelectual brasileiro. 

Vale notar que, desses três pioneiros, Collins foi o segundo participante deste extraordinário feito americano de conquistar espaços siderais e os planetas a morrer. Foi parte de um arrojado projeto guiado por Wernher von Braun, um ex-nazista, pioneiro das mortais bombas V-2. Uma façanha embriagada de ideologia-e-fantasia que vai descobrindo obstáculos difíceis de superar. Não por causa do sonho, mas certamente pelo que todo sonho cobra da realidade. 

Afinal, sonhar e urdir, estar perto e longe, são as marcas da ascensão humana e da própria essência do bípede desprezível que somos, conforme sentenciava um provocador Arthur Schopenhauer.

A conquista lunar foi um belo exemplo das contradições humanas. Mais do que isso: foi ver outro dia, ao vivo e em cores, um drone sobrevoando o planeta Marte desolado, inóspito e morto, ao mesmo tempo que a Terra estava vestida de milhões que sofriam e morriam afetados por uma incontrolável pandemia. O sofrimento não era ouvido em Marte. Aliás, para muitos, sofrer é uma questão de idade, perspectiva e, quem sabe, gosto...

Talvez seja mais saudável ouvir as estrelas e - com o perdão do trocadilho, perder por desinteresse ao autoconhecimento - o senso do que ser um explorador de mundos impassíveis. 

Certamente o astronauta Collins foi um nítido exemplo de estranhamento quando, sozinho, conscientizou-se de que estava entre o mais distante, sem poder abandonar aquilo que inexoravelmente trazia dentro de si mesmo: o conteúdo - nem sempre sabido ou querido do mais próximo - do que é nosso. 

Vale citá-lo:

“A Apollo 11, disse, foi uma coisa séria. Nós da tripulação sentimos o peso do mundo em nossos ombros.” E acrescentou poeticamente: “A coisa que mais me lembro é a visão do planeta Terra. Minúsculo. Muito brilhante. Azul e branco. Brilhante. Bonito. Sereno e frágil.” 

Vista de muito longe, o mundo (a Terra vivida e experimentada) não é nem rico ou pobre nem frio ou calorento. É um ponto sem mapas e divisões. Daquela perspectiva intermediária, pois Collins não estava nem na Terra nem na Lua, ele viu o planeta de um outro lugar. Sofreu, como os deuses que inventamos para nos proteger, a angústia e a bênção de quem olha o negrume de um céu coalhado de estrelas. 


É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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