O maior espetáculo da Terra

Pagamos ingressos de cinema para presenciar histórias fictícias de amor, mas temos cada vez menos disponibilidade para assistir a amores reais

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2018 | 03h00

Quando entrei pela porta principal da biblioteca naquela quinta-feira de tempo esquisito, logo vi: a moça da limpeza passou pelo segurança e sorriu. Ele sorriu de volta e não parou de sorrir depois de ela já ter atravessado a porta. O homem permaneceu sorrindo, seguramente, por mais uns 15 segundos.

Naquele momento, aquele fato não me pareceu tão importante. Fui, como de costume, para a sala principal da biblioteca, a mais clara de todas – e que tem banheiro perto, o que é, sem dúvida, um grande diferencial. Me instalei numa cadeira de costas para a janela e comecei a organizar meus livros.

Cerca de uma hora depois desse primeiro incidente, a moça da limpeza apareceu na sala onde eu estava estudando os efeitos da globalização na economia do trabalho. Ela ia limpar aquela bonita porta de vidro do canto esquerdo, que tem uma moldura de madeira pintada de dourado, acima da qual uma placa diz claramente “acesso restrito” para eventuais curiosos. Limpou os vidros por fora, mas precisava limpá-los também por dentro. Tentou uma, duas, três vezes, mas não conseguia abrir a porta. Dia de sorte.

A moça saiu apressada, ajeitando seus cabelos no rabo de cavalo baixo e, segundos depois, voltou acompanhada do segurança sorridente. Ela caminhava na frente e ele atrás, em fila indiana. A ansiedade dos dois era evidente. Ele estava performático: o peito inflado, a barriga encolhida e os ombros armados, mesmo que, de costas, ela não pudesse vê-lo.

Ela era bem miúda, com ombros magricelos embaixo do avental verde-água, pele morena clara, cor de doce de leite, cabelos pretos e um rosto fino e manchado. Deveria ter uns quase 40 anos e parecia cansada. Não cansada naquele momento, mas cansada pela vida, ao longo dos anos. Via-se nos seus ombros magros que a vida não tinha facilitado as coisas para ela.

Ele era alto, gorducho e rosado. Tinha os cabelos claros raspados curtinhos e quando sorria, via-se a falta de um pré-molar do lado direito. Seu uniforme cor de café com leite envelhecia-o até os 47, embora ele possivelmente só tivesse 42. Tinha um ar bom e solitário. Via-se facilmente que ele não tinha ninguém, mas que não se tornou amargurado por conta disso. Coisa rara.

Os dois sorriam de forma escancarada quando não se olhavam. Quando se olhavam, desviavam o sorriso para o chão, para a porta, para o teto, para o livro de anatomia que uma moça lia na primeira mesa, numa vã tentativa de disfarce. Os curiosos podiam não ter permissão para entrar na área restrita, mas entravam sem dificuldades na história da moça da limpeza e do segurança.

Ele armou os braços como um gladiador e abriu a porta dourada sem dificuldade alguma. Estufou ainda mais o peito, orgulhoso do seu sucesso. Ela riu aquele riso que quase toda mulher ri quando quer pendurar-se num pescoço, como quem diz “ainda bem que você existe”.

Ele procurou um pretexto para ficar mais alguns segundos ao lado dela. Apontou para a janela e disse algo que ela certamente não ouviu. Depois, voltou os olhos para ela, sorriu devagar e foi embora. Ela agradeceu enquanto arrumava uma mecha de cabelo atrás da orelha.

Era absolutamente evidente que o amor estava na minha frente. Talvez nascendo, talvez crescendo, não sei muito bem. Mas estava. Não era paixão, faísca, flerte, ocasião. Era muito maior do que isso. E eu estava lá, na primeira fila para assistir a uma coisa tão grande. Como eu poderia me preocupar com a economia internacional? Coisa tão irrelevante perto do amor.

Pagamos ingressos de cinema para presenciar histórias fictícias de amor, mas temos cada vez menos disponibilidade para assistir a amores reais. Nossos olhos estão desatentos. Mas eles estão aí, todo dia, aguardando plateia sem que haja bilheteria. Gastamos nosso tempo de forma muito equivocada.

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