O maior ataque ao racismo

Na Época do Ragtime, de Forman, estava na contracorrente há 30 anos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2010 | 00h00

James Cagney fez história no cinema de gângsteres. Ele não falava os diálogos - disparava as palavras como se fossem balas e o próprio corpo expressava tensão física. Cagney era 100% um ator de cinema. Puro movimento. Por isso mesmo há algo de sinistro no imobilismo que Milos Forman lhe impõe em Na Época do Ragtime. Cagney é o chefe de polícia preso a uma cadeira de rodas. Comanda a fuzilaria contra o personagem negro-americano interpretado por Howard E. Rollins Jr. É outro mistério do filme.

Em 1981, quando Forman fez, nos EUA, sua adaptação do relato semificcional de E.L. Doctorow sobre a América em 1906, você era capaz de jurar que Rollins ia virar astro. No ano seguinte, ele estrelou A História de Um Soldado, que Norman Jewison adaptou da peça de Charles Fuller, com boa parte do elenco original da Negro Ensemble Company, e quem virou astro foi um modesto coadjuvante, um certo Denzel Washington, totalmente eclipsado pelo carisma de Rollins Jr.

Os estranhos caminhos do sucesso - o próprio Forman, que se destacara na Checoslováquia, durante a chamada "Primavera de Praga", se exilou nos EUA quando os soviéticos invadiram o país. Na "América", fez Busca Insaciável e ganhou o Oscar com Um Estranho no Ninho. Logo em seguida veio Hair e Forman, não havia mais dúvida, era um dos grandes do cinema, um autor cuja potência crítica vinha embalada em grande brilho formal. Consagrado, ele ganhou carta branca para fazer Na Época do Ragtime. O filme custou caríssimo - a reconstituição de época é irretocável -, mas o público não correspondeu. Como Hollywood só valoriza o último desempenho na bilheteria, Forman perdeu credibilidade.

Mas não havia sido ele que tropeçara. Em 1981, os EUA, sob o embalo da presidência de Ronald Reagan, deram a guinada para a consolidação das economias neoliberais que mudariam o mundo nos anos seguintes. Quatro anos mais tarde, Sylvester Stallone venceu na ficção a guerra que os EUA haviam perdido no Sudeste Asiático - em Rambo 2, A Missão, de George Pan Cosmatos. Mais quatro anos e a Queda do Muro de Berlim, precipitando a derrocada do império soviético, redesenhou a geopolítica mundial. Nesse quadro, a voltagem crítica de Ragtime estava na contracorrente das tendências em voga.

O filme, como o livro, tece um amplo painel histórico e social. São várias tramas, e uma delas se refere aos primórdios do cinema. Diferentemente do romance, porém, Forman e o roteirista Michael Weller abrem mão do painel para concentrar o foco em uma história - a do negro (Rollins Jr.) que busca justiça contra os assassinos da mulher, terminando por se tornar uma ameaça para os poderes constituídos. O resultado talvez seja o maior ataque de Hollywood ao racismo, em qualquer época. Forman ganhou seu segundo Oscar com Amadeus, foi virulento em O Povo Contra Larry Flint. Ele finaliza atualmente The Ghopst of Munich, seu primeiro filme desde o poderoso Os Fantasmas de Goya, em 2006.

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