O mágico encontro entre Wilson e Berliner

Peças mostradas em São Paulo testemunham parceria

O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2012 | 02h10

É como estar diante de um quadro de um pintor que conhecemos. Há sempre uma marca, um sinal distintivo que soa como assinatura inconfundível. Assistir ao teatro de Robert Wilson é observar telas minuciosamente desenhadas. E autorais. Não importa exatamente qual seja o texto: Brecht, Beckett, Shakespeare. Assim como podemos pensar que não faz diferença saber o que Pollock ou Kandinsky tinham em mente quando fizeram suas obras.

Foi por sua potência visual, e não propriamente pela força literária, que Wilson tornou-se o que é. Representante de um teatro que prescinde do drama e da psicologia dramática. Perseguidor incansável da Gesamtkunstwerk, a obra de arte total preconizada por Wagner.

Na Ópera dos Três Vinténs e em Lulu, espetáculos que o encenador norte-americano trouxe este mês ao Sesc Pinheiros, a sua "assinatura" permanecia intacta. A elegância visual, a iluminação precisa, o uso simétrico de sons e imagens, os movimentos decompostos em gestos mínimos.

Não se pode desconsiderar, porém, a presença de outra variável nesse campo de forças: o Berliner Ensemble. Fundada por Bertolt Brecht, a companhia alemã trouxe à encenação matemática de Wilson um brilho extra. Difícil de nomear, mas reluzente.

Ao passar por Porto Alegre, em setembro deste ano, o histórico grupo já havia dado sinais contundentes de sua potência. Apresentou, à ocasião, Mãe Coragem e Seus Filhos. Aparecia sob a condução de outro diretor: Claus Peymann. Mas não deixava pairar dúvidas sobre quão raros e preciosos são seus intérpretes.

Protagonizada por Ângela Winkler, Lulu talvez tenha, para grande parte do público, mais impacto do que A Ópera dos Três Vinténs. É obra em que a mão de Wilson soa mais evidente: ele altera a dramaturgia original de Frank Wedekind, reitera a morte da personagem título em diversos momentos, insere, sabiamente, um traço dissonante ao contrapor a voz delicada de Ângela com a sonoridade áspera de Lou Reed. Existe ainda a plasticidade arrebatadora do segundo ato. E o estupor de estar diante de um mecanismo perfeito. Não de uma arte imprecisa e artesanal, como é o teatro. Antes, de algum engenho mecânico infalível e maravilhoso.

Com a peça de Brecht, a história é outra. A Ópera dos Três Vinténs carrega, na sua própria tessitura, um quê de imperfeita. Uma dramaturgia que não é engenhosa o tempo todo, que tem seus esgarçamentos, seus momentos de tédio. E, em igual medida, de inigualável arrebatamento. Nesse território erodido é mais belo, ou comovente, o caminho do Berliner. Lá estão a luz cirurgicamente delineada do diretor, seus movimentos marcados à exaustão, o formalismo da cena. Não falta nada. Mas existe algo que escapa. A artificialidade de Wilson persiste, porém atravessada por uma dicção vital. Surge maior porque incompreensível, falha, humana.

Análise:

Maria Eugênia de Menezes

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