Divulgação
Divulgação

O mágico encontro entre Robert Wilson e o Berliner Ensemble

Espetáculos 'Lulu' e 'Ópera dos Três Vinténs', mostrados em São Paulo, testemunham parceria

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2012 | 19h14

É como estar diante de um quadro de um pintor que conhecemos. Há sempre uma marca, um sinal distintivo que soa como assinatura inconfundível. Assistir ao teatro de Robert Wilson é observar telas minuciosamente desenhadas. E autorais. Não importa exatamente qual seja o texto: Brecht, Beckett, Shakespeare. Assim como podemos pensar que não faz diferença saber o que Pollock ou Kandinsky tinham em mente quando fizeram suas obras.

Foi por sua potência visual, e não propriamente pela força literária, que Wilson tornou-se o que é. Representante de um teatro que prescinde do drama e da psicologia dramática. Perseguidor incansável da Gesamtkunstwerk, a obra de arte total preconizada por Wagner.

Na Ópera dos Três Vinténs e em Lulu, espetáculos que o encenador norte-americano trouxe este mês ao Sesc Pinheiros, a sua “assinatura” permanecia intacta. A elegância visual, a iluminação precisa, o uso simétrico de sons e imagens, os movimentos decompostos em gestos mínimos. 

Não se pode desconsiderar, porém, a presença de outra variável nesse campo de forças: o Berliner Ensemble. Fundada por Bertolt Brecht, a companhia alemã trouxe à encenação matemática de Wilson um brilho extra. Difícil de nomear, mas reluzente.

Ao passar por Porto Alegre, em setembro deste ano, o histórico grupo já havia dado sinais contundentes de sua potência. Apresentou, à ocasião, Mãe Coragem e Seus Filhos. Aparecia sob a condução de outro diretor: Claus Peymann. Mas não deixava pairar dúvidas sobre quão raros e preciosos são seus intérpretes.

Protagonizada por Ângela Winkler, Lulu talvez tenha, para grande parte do público, mais impacto do que A Ópera dos Três Vinténs. É obra em que a mão de Wilson soa mais evidente: ele altera a dramaturgia original de Frank Wedekind, reitera a morte da personagem título em diversos momentos, insere, sabiamente, um traço dissonante ao contrapor a voz delicada de Ângela com a sonoridade áspera de Lou Reed. Existe ainda a plasticidade arrebatadora do segundo ato. E o estupor de estar diante de um mecanismo perfeito. Não de uma arte imprecisa e artesanal, como é o teatro. Antes, de algum engenho mecânico infalível e maravilhoso.

Com a peça de Brecht, a história é outra. A Ópera dos Três Vinténs carrega, na sua própria tessitura, um quê de imperfeita. Uma dramaturgia que não é engenhosa o tempo todo, que tem seus esgarçamentos, seus momentos de tédio. E, em igual medida, de inigualável arrebatamento. Nesse território erodido é mais belo, ou comovente, o caminho do Berliner. Lá estão a luz cirurgicamente delineada do diretor, seus movimentos marcados à exaustão, o formalismo da cena. Não falta nada. Mas existe algo que escapa. A artificialidade de Wilson persiste, porém atravessada por uma dicção vital. Surge maior porque incompreensível, falha, humana. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.