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Ô Madalena

Você nasceu no Brasil mais bagunçado que eu já vi. Nasceu num Brasil triste

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

26 de agosto de 2018 | 02h00

Querida Madalena, essa semana você completou seu primeiro mês de vida. Fez muito frio aí em São Paulo nessas últimas semanas, pelo que sei. Mas fique tranquila que, normalmente, não é assim não. Na maior parte dos dias você poderá ficar com seus bracinhos gorduchos de fora e uma calça de algodão levinha. Vai ser gostoso, pode apostar.

Eu sou aquela tia que você só viu duas vezes. Na primeira chorei muito, você talvez tenha se assustado um pouco. Mas no dia em que você tiver uma melhor amiga, como eu tenho a sua mãe, e ela tiver um bebê, você vai ver que é muito difícil segurar o choro. Na segunda eu já estava mais calma. Só chorei no carro, indo embora, você nem viu. Chorei porque não queria ficar muito tempo sem te ver, nem queria estar com a sua mãe só através das mensagens de WhatsApp.

Eu sou a tia que mora muito longe, do outro lado do mar. Você ainda não conhece o mar, mas ele é muito bonito. Às vezes é azul, outras vezes esverdeado e, em alguns lugares, meio cinzento. Quando a gente olha pro mar, a vida parece diferente. Mais calma e talvez um pouco melancólica. Talvez isso aconteça porque a gente não sabe bem o que tem depois dele. Mas saiba que o que tem depois do seu mar, sou eu. Então você não precisa ter medo.

Você nasceu no Brasil mais bagunçado que eu já vi, Madalena. Nasceu num Brasil triste onde já não temos muita certeza de nada. Quando você tiver 3 meses, o Brasil vai escolher um novo presidente. Mas fique tranquila, eu, sua mãe, seu pai e tantas outras pessoas boas não deixaremos que um homem mau, que grita, não gosta das meninas e gosta de armas seja o escolhido. Vamos reconstruir um bom Brasil pra você, pode acreditar. Eu estou te prometendo.

Assim que você puder tomar picolé, eu vou te levar na padaria. Eu gosto muito do de coco. O de limão e o de uva também são bons. Podemos nos sentar no degrau e ir comendo ali, enquanto umas gotinhas vão pingando no chão. E – segredo – se você quiser outro quando o seu acabar, eu compro e a gente não conta pros seus pais. Eles nunca vão ficar sabendo, combinado?

Tem uma música muito bonita com o seu nome. Seus pais já devem cantar para você. Ela tem umas partes meio tristes, não dê bola pra elas. Mas tenha certeza da parte em que dizem que o nosso amor existe, forte ou fraco, alegre ou triste. Na verdade, esqueça a parte do amor fraco. Nosso amor vai ser sempre forte, mesmo de longe, tá bom?

Eu não sou muito boa com fraldas, papinhas e bolos. Mas prometo escrever os cartões de aniversário mais bonitos que você vai receber. Vamos fazer uma coleção, ano após ano. E quando você for adulta talvez você goste deles. Enquanto você é pequena prometo te dar presentes baratos: bolinhas coloridas que pulam, legumes que têm velcro no meio e que você finge cortar com uma faquinha de plástico, carrinhos daqueles que quando a gente puxa pra trás, depois ele anda sozinho pra frente. 

E o mais valioso: te prometo tempo. Prometo me sentar para brincar com você em vez de te dar os brinquedos e ir embora. Essa é a parte mais difícil, mas a gente vai dar um jeito. Porque eu sei que não adianta ter cartão bonito, nem cenoura de plástico, nem texto em jornal se eu não te mostrar com os olhos e com os braços o tamanhão do meu amor. Esse é um erro muito comum no século em que você nasceu. As pessoas acham que dá pra amar de jeitos que, na verdade, não dá.

Às vezes vamos ter que brincar por Skype, Facetime, chamada de vídeo. Mas eu estarei aí. Você vai ouvir minha voz e eu vou te ensinar a dança do malucossauro. A gente vai dar um jeito, você vai ver. Não se preocupe com nada, por enquanto. Apenas mame, durma, sorria e faça cocô. Do resto, cuidamos nós. Do país, do mar, do tempo, dos cartões, dos choros, da distância e dos picolés. E saiba: nós estamos aqui.

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